um sítio para fugir

Lost In Translation – Edição Moscovo

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Como qualquer pessoa de bem tenho a ambição de viajar pelo mundo todo, mas sei que isso dificilmente acontecerá. Por isso, na minha cabeça, vou adicionando ou retirando destinos à medida que as minhas ambições pessoais ou profissionais vão evoluindo. Resumindo, tempo e dinheiro, um clássico da evolução do homem.

A Rússia, por qualquer motivo que não sei explicar, nunca entrou nas minhas cogitações e foi a obrigatoriadade de uma deslocação a trabalho, que me permitiu tomar o pulso a Moscovo.

Foi a primeira experiência onde estou completamente fora da minha zona de conforto. Li em qualquer lado que os moscovitas são cultos e até sabem falar outras línguas, mas que não gostam muito de o fazer. Sou testemunha. Das duas ou três vezes em que ouvi falar inglês, aquelas palavras soaram-me a versos de Fernando Pessoa.

O alfabeto cirílico também não ajuda. Orientava-me no metro porque a estação com o meu destino tinha uma letra parecida com uma aranha. Um sistema que se revelou bastante falível. Muitas palavras com aranhas.

Não fui sozinho nesta viagem, mas é como se tivesse ido. Nos horários de lazer nunca encontrei companhia com grande espírito de exploração. Por isso, estudei o mapa e preparei o plano de ataque ao centro da cidade. Na hora de saída, uma alma corajosa decide acompanhar-me. Alerta Putin, dois portugueses à solta em Moscovo. Metro, direcção errada, estação seguinte, rota corrigida. Passados 10 min já apreciavamos a fachada neoclássica do Teatro Bolshoi. Mas não somos diferentes dos outros turistas, o que nós queremos é a Praça Vermelha e a carismática Basílica de S.Basílio. Estudamos um mapa na rua e aparece uma alma que nos oferece ajuda em inglês. Como é bom ouvir Fernando Pessoa. Estamos a poucos metros, são 22:30 e estão quatros graus negativos. Um McDonalds, um Subway, um Starbucks e estou junto ao Museu Histórico do Estado e através do arco de entrada para a Praça Vermelha já consigo vislumbrar a icónica basílica, símbolo de Moscovo e da própria Rússia.

O que dizem os teus olhos?

Sinto que não era suposto eu estar ali. Até aquele momento, a minha vida nunca caminhou de forma a pensar que algum dia estaria num local daquela importância. Avanço em direcção à Praça e sinto um vento cortante a atravessar-me o corpo. Gosto de frio. Chamo o meu companheiro, temos a Praça Vermelha praticamente só para nós. Também, quem é que vai para ali num dia de semana às onze da noite? Tiro algumas fotos, pena ter o pior telemóvel do mundo para isso. Kremlin à direita, boa noite Senhor Putin. Túmulo de Lenine, um centro comercial à esquerda e a basílica cada vez mais perto. A Basílica de S.Basílio é mais pequena do que aquilo que parece, mas isso não retira nada ao magnetismo daquelas cores e formas. Depois atravessamos o rio Moscou e exploramos durante horas aquela parte da cidade. Não fazia ideia do que era aquilo que estava a ver. Um jardim, uma nau gigante (àquela hora seguramente assombrada), igrejas ortodoxas, mais jardins, museus talvez, mas não sabia o nome dos lugares nem a sua história. Só sei que vi. Voltamos para casa satisfeitos e ignorantes.

Nunca vi tantas mulheres bonitas na minha vida. Enquanto esperava pelo metro não olhava para a linha, e ficava a olhar para trás a vê-las passar. Agora acredito naquelas publicidades das grandes marcas de moda, que mostram mulheres incrivelmente elegantes em ambientes citadinos, no meio da confusão, da chuva ou da neve. Elas existem mesmo, eu vi, mas não agarrei.

No pouco tempo livre que me restou ainda consegui conhecer à noite a Rua Arbat, talvez a rua mais antiga de Moscovo, coração cultural da cidade, uma oportunidade para fazer um passeio sem pressa ao longo dos seus 1000 metros de extensão. Por ser tarde, já não havia os músicos de rua descritos em qualquer roteiro, ou mesmo qualquer banca de souvenirs. Sobra assim mais tempo para a contemplação das fachadas, das luzes, e melhor que isso, para a arrumação das ideias.

No último dia antes do regresso a Portugal, e finalmente de dia, ainda foi possível voltar à Praça Vermelha, já sem a mesma magia daquele primeiro encontro, e conhecer também o enorme Centro Russo de Exposições, o sítio com as Matrioskas ao melhor preço.

Pedro

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