Florença é uma cidade que eu já gostava, mesmo antes de a conhecer, antes mesmo de saber da sua importância nas aulas de história do ensino básico. A culpa foi do Rui Costa, príncipe de Florença, maestro do futebol português, e Gabriel Batistuta, Batigol para os amigos, que formaram uma das duplas mais carismáticas do futebol europeu. Poucos jogos vi da Fiorentina naquela época, pensando bem, talvez nunca tenha visto um jogo completo. Era pequeno, poucas imagens chegavam a Portugal, não havia internet. Como é possível gostar tanto de uma equipa, sem praticamente vê-la jogar? Como é possível gostar de uma equipa que não ganhou quase nada? Como é possível essa equipa, e esses jogadores, fazerem-me gostar de uma cidade que eu nunca vi? Deve ser dessa matéria que se fazem os mitos.
Na escola ensinam-nos a gostar de Florença. Capital da Toscana, uma das cidades mais bonitas do mundo, berço do renascimento italiano. Governada pela família Médici, desde o início do século XV até meados do século XVIII, que patrocinaram os grandes artistas daquela época. Michelangelo, Leonardo da Vinci, Giotto, Botticelli, Donatello, estão todos lá, à espera de serem apreciados.
Florença é uma daquelas cidades possíveis de amar, apenas vagueando pelas ruas. Olhar o Duomo é hipnotizante, olhar a fila para o visitar, também. A cidade respira arte, e qualquer lugar é bom para visitar, é o roteiro mais fácil de sempre. Caminhar do Duomo até à Piazza della Signoria, atravessar a Ponte Vecchio, passar pelo Palazzo Pitti, e quem tiver tempo, descobrir a Piazzale Michelangelo, para uma visão panorâmica da cidade. Imperdível a visita ao mercado central de Florença e impossível sair sem gastar dinheiro. Perdi a cabeça, comprei um porta-chaves.
Ao parar para descansar, sentados à sombra do Palazzo Vecchio, fugimos do calor, e vemos a cidade passar por nós. Um animador de rua faz os visitantes felizes, sem precisar de dizer nada. Apreciamos o espectáculo da contrafação. Vendedores de réplicas de obras de arte e malas de senhora da moda fazem pela vida, teletransportam-se ao mínimo sinal de polícia. Selfie sticks para o menino e para a menina. Aqueles minutos, naquela sombra, fizeram-me perceber que não reservamos o tempo suficiente para conhecer a cidade.
O Roberto Incontri confirmou o meu veredito, Florença não é uma cidade para se visitar num dia. Proprietário do Armonie di Villa Incontri, onde ficamos alojados, explica-me que, no mínimo, é preciso uma semana para conhecer verdadeiramente a cidade. Só para ver as obras da Galeria Uffizi precisava de dois ou três dias. A família espanhola, do quarto ao lado, já ali estava há três semanas. Gastaram o tempo que precisaram em Florença, mas já exploraram também Pisa, Lucca, Siena e outros segredos da Toscana. Percebi que não tenho outro remédio que não seja voltar. Fica o aviso, Florença é uma cidade que precisa muito da sua atenção. Não cometa o mesmo erro.
O Roberto é oficialmente o meu único amigo italiano, quem é que não gostava de ter um? Fazer amizade com ele não foi difícil. No telemóvel, reparei que tinha uma imagem com o símbolo da Fiorentina. Lancei-lhe um feitiço e disse-lhe as palavras mágicas: “Rui Costa”. Ele endireitou o corpo, pensou dois segundos… Depois apontou para o seu braço direito e no seu tom de voz mais solene disse: “Até hoje quando me falam do Rui Costa, fico todo arrepiado, olha para isto”. Falamos de futebol, de jogadores e das viagens que fez a Portugal para acompanhar a Fiorentina. Ele conhece o Porto e Lisboa. Disse-lhe que voltávamos um dia. Ele disse que quando eu voltar já deve ter uma piscina. Amigos para sempre. Fim.