Ao contrário de Moscovo, São Petersburgo é uma cidade mais aberta ao mundo. As pessoas falam inglês, existem indicações em inglês nos transportes públicos e por isso o impacto deste regresso à Rússia é bastante menor. São Petersburgo é também uma cidade portuária, daí esta maior disponibilidade para querer dar e receber a quem passa por ali. São apenas 300 anos de história da cidade, mas com tanto, tanto para ver, e tanta história para conhecer. Pedro I, o Grande, foi o seu fundador em 1703, e a história a partir daí é avassaladora.
Estou já há cinco dias em São Petersburgo, numa ilha periférica da cidade, apenas com tempo para trabalhar, comer e dormir. Já sentia um formigueiro no corpo por não estar a conseguir aproveitar a oportunidade de conhecer a cidade. Percebi pelo mapa que estava a 5 kms do centro e que se seguisse para sul, cruzando três ou quatro ruas encontrava o rio Neva, para depois só ter de seguir o curso do rio. Gosto de descobrir cidades a caminhar, mas era Setembro, estavam quase 20 graus e tinha urgência em fazer desaparecer o formigueiro do meu corpo. Fui a correr. Foi a corrida mais feliz da minha vida.
Os primeiros 4 kms foram de alguma monotonia no cenário, percorrendo ruas de edifícos cinzentos, altos, todos iguais, e alguns armazéns de aspecto abandonado, que me colocavam em sentido sempre que passava por eles. Era a única pessoa a correr na rua, e durante o percurso estive sempre à espera de ser surpreendido por alguma autoridade para me prender. Sei lá, podia ser proíbido correr, ou a minha T-shirt podia ser de uma cor que o Putin não gosta, na Rússia nunca se sabe. Finalmente volto a vislumbrar o rio, corro na sua direcção e curvo à esquerda. Cheguei no minuto certo. O ritmo da minha corrida abrandou de imediato, mas o ritmo do meu coração disparou vertiginosamente. Encontrei um cenário perfeito. Um rio enorme de águas escuras, a luz ténue do entardecer a reluzir na cúpula dourada da Catedral de Santo Isaac, na torre dourada do Forte de Pedro e Paulo e em todas a extremidades dos monumentos da cidade. Toda a cidade brilhava para mim. Corri até a primeira ponte que me apareceu e reconheci o Museu Hermitage. Decidi fugir dali, também não queria ser preso por excesso de felicidade.
Voltei ao local do crime passados dois dias, com o modo turista activo, agora de metro, para chegar com um ar mais razoável.

E agora preparadados para um pouco de história? Quem não quiser salta o parágrafo, até porque a história é sangrenta, à boa maneira da política russa e do jornal Correio da Manhã. Entrando pelo Canal de Griboyedova, transversal à Nevskiy Prospect, encontramos a impactante Catedral do Sangue Derramado, construída no local onde Alexandre II foi assassinado, dois anos depois da sua morte em 1883, tendo sido inaugurada em 1907. No Forte de Pedro e Paulo, Pedro I mandou torturar até à morte o seu próprio filho, suspeito de conspiração, e foi no mesmo forte que Catarina II, conspirou com o seu amante para derrubar o marido, para depois ficar a governar por longos anos. A história dos regicídos continua, mas não quero chatear mais ninguém com isso. Só não esquecer que São Petersburgo já foi Leninegrado, e foi aqui, por exemplo, que Estaline mandou matar o seu número dois, Serguei Kirov, iniciando uma limpeza de uma boa parte dos dirigentes comunistas. Se quisermos encontrar um paralelismo em pleno século XXI, ainda podemos assistir a episódios semelhantes no actual regime da Coreia do Norte, e na Turquia, Erdogan parece querer seguir esta tradição política.
Faltavam pouco mais de duas horas para o Museu Hermitage fechar, mas mesmo assim entramos, porque talvez não houvesse oportunidade de voltar. O Hermitage é um dos maiores museus do mundo e perdermo-nos lá dentro é a coisa mais fácil de acontecer. São mais de três milhões de peças de todas as épocas, estilos e culturas, espalhadas por dez prédios. Pelas minhas contas só vi para aí umas mil. Devia ter vergonha.

Entre igrejas, palácios e museus, São Petersburgo contabiliza mais de uma centena, e do muito pouco que vi, e sem entrar nos edifícios, ainda posso referir a Catedral de Nossa Senhora de Kazan, a Catedral de Santo Isaac, a Igreja de Santa Catarina, o Museu da Marinha e a Catedral de Pedro e Paulo. Senti-me uma pessoa erudita ao tomar café na Casa Singer, uma das maiores livrarias russas, com vista priviligiada para a Catedral de Kazan. Ainda vi ao longe o Estádio Petrovsky, que as nossas equipas de futebol visitam com alguma frequência. O Benfica iria estar ali passado um mês.
No fim, porque não podemos esquecer as pessoas que gostam de nós em Portugal, fica a dica, com paciência, consegue encontrar-se Ovos Fabergé a bom preço, neste caso genéricos de Ovos Fabergé pois claro, garantia de um sorriso sincero no momento do reencontro.