Muitas vezes há uma tendência para esquecer o caminho que percorremos até chegar a um destino. Vivemos numa quotidiana fúria de viver, queremos chegar mais depressa aos sítios, se possível ser os primeiros. Queremos ser também os primeiros a receber ou a partilhar informação, e essa quantidade estratosférica de informação a que somos submetidos, acabou por nos viciar, tornando-nos menos pacientes. Não gostamos de esperar e queremos ser entretidos. Queremos chegar depressa, porque mesmo antes de chegar, já temos muito que fazer.
Gosto de viajar o mais devagar possível, gosto de olhar para a janela e ser surpreendido pelo caminho e pelas mudanças de paisagem. Gosto de andar a pé, porque só a caminhar conseguimos verdadeiramente captar a essência do lugar por onde passamos. Para além disso, caminhar, ainda é a única coisa que podemos fazer gratuitamente.
A viagem que ligou Aix-en-Provence a Gorges du Verdon foi de carro, mas andamos muito, muito devagar. O plano passava por visitar Gorges du Verdon, aproveitando o caminho para conhecer Valensole, famosa pelos intermináveis e icónicos campos de lavanda desta região da Provença. Fugimos da auto-estrada para desfrutar da visão dos campos e de povoações isoladas que nos aparecessem no caminho e chegamos a Valensole muito antes da hora de almoço. Chegamos a terra de ninguém. Terrenos desertos, casas fechadas e muito raras viaturas a cruzarem-se connosco. E aí estavam eles, os famosos campos intermináveis, mas sem uma única flor para contar história. Continuamos a nosso caminho até que, subitamente, para nosso deslumbramento, alguma entidade divina superior decidiu pincelar de violeta uma generosa porção de terreno. Pensavamos que aquele milagre de encontrar um campo de lavanda em flor era uma benção a premiar a nossa perseverança, mas descobrimos que ainda não somos importantes o suficiente para o Divino reparar na nossa existência.
Daquela paisagem já fazia parte um outro casal, numa pose apaixonada, como quem troca juras de amor, com outro casal a relativa distância a assistir à cena. Até que ouvimos “Nossa, Wagner, você perdeu o proposal!!”. Afastamo-nos um pouco para não estragar aquele quadro e para não perceberem que somos portugueses, se bem que é muito provável que se nos ouvissem falar, pensariam que eramos espanhóis. Mais tarde, aprendi que a lavanda floresce no final do mês de Junho, e que em Julho já é possível ver os campos a mudarem de cor. A colheita é feita, geralmente, entre 15 de Julho e 15 de Agosto, sempre em função da temperaturas mais ou menos quentes durante aquele período. Aquele campo de lavanda perdido, talvez deva ter demorado mais a florescer, ou simplesmente ficou esquecido, o que veio mesmo a calhar para nós, e principalmente para salvar aquele pedido de casamento.
Continuamos estrada fora, ora através de longuíssimas retas, ora por longos quilómetros de constantes curvas e contra-curvas. Estacionamos por alguns minutos para apreciar Moustiers-Sainte-Marie ao longe, uma povoação construída na intersecção de um desfiladeiro com a encosta de duas montanhas afiadas. Nunca vamos esquecer o solene dobrar do sino da igreja que marcava as 13 horas.
Gorges du Verdon é um parque natural que deve o seu nome ao rio Verdon, um rio de águas azul turquesa, que originou um incrível acidente geográfico com dezenas de quilómetros de um desfiladeiro de montanhas calcárias. Para ser mais preciso, estámos a falar de um dos canyons mais profundos da Europa, com cerca de 700 metros de profundidade e 50 quilómetros de extensão. Os vários acessos são apertados, cheios de curvas e muito cansativos. Errar no caminho, significava sempre muitos quilómetros extra de penitência, até ter espaço para voltar atrás. Chegamos ao Lac de Sainte Croix e o tempo parou. A vista proporcionada pela ponte que atravessa o lago, teve o poder de congelar o tempo por alguns segundos.
Não resistimos, e ficamos na fila, à espera da oportunidade de percorrer de gaivota os cerca de 2 quilómetros daquela garganta do rio Verdon. Fizemos o percurso em modo contra-relógio, porque só tinhamos uma hora para voltar, e por outro lado, quisemos mostrar que os portugueses são fortes, rápidos e rijos. Descansamos várias horas nas margens do lago, aquecidos pela temperatura perfeita do sol do final de tarde.
O caminho de voltar foi intenso. Se eu fosse poeta tinha escrito mil versos inspirados naquelas nuvens, nos raios de sol que as atravessavam, na dança suave das árvores inspirada pela brisa do final do dia, e pelos quilómetros de asfalto sem ninguém a nossa frente.