Quando visitamos aldeias históricas e isoladas como a do Ermelo, é normal fazermos o exercício mental de imaginar a vida daquela aldeia em décadas anteriores. Se por vezes, ainda hoje, é difícil chegar a alguns destes lugares, como seria há 40, 50 ou 100 anos atrás? A tendência é imaginar um cenário desolador, de solidão, de falta de novidade e da rotina do trabalho rural. Mas é comum ouvir os actuais habitantes destas aldeias a dizer o contrário. As aldeias tinham vida, as famílias eram numerosas, havia crianças a correr, havia música, bailaricos e rivalidades. Mas a legítima ambição do homem em querer mais para a sua vida, faz com que a dimensão destas aldeias, a monotonia do trabalho e o silêncio da montanha os comecem a sufocar. E a solução foi partir.
A aldeia do Ermelo, situada no Parque Natural do Alvão, é uma típica aldeia de casas de xisto e lousa, inserida numa paisagem que mistura a montanha, campos de cultivo e o rio Olo.
O Trilho das Fisgas de Ermelo, inicia-se na aldeia, junto da igreja paroquial, com uma distância anunciada de 12,4 kms. O percurso está bem marcado e só quem for muito distraído se vai perder. Existem vários leitores de paisagem, que nos ajudam a perceber a importância do local que estamos a observar. O primeiro destaque é na “Lomba do Bulhão”.
O ponto alto do Trilho das Fisgas surge pouco depois. “O Alto da Cabeça Grande” é um miradouro privilegiado para contemplar as quedas de água. Aproveite o cenário para comer, para fotografar, ou para gritar, se for o caso.
As Fisgas do Ermelo ainda ocupam o papel principal da paisagem durante alguns metros, subida acima. Rapidamente chegamos às Piócas de Cima, local onde o rio Olo formou uma série de piscinas naturais perfeitamente acessíveis para ir a banhos. Não se precipite se achar que ainda não é altura para experimentar as águas do rio, mais 5 ou 6 kms de trilho, terá nova oportunidade, mas nas Piócas de Baixo. Antes disso seguimos na direcção da aldeia de Varzigueto, e no caminho cruzamo-nos com um rebanho de centenas de cabras orientados por alguns cães e supervisionados por um pastor. Sem ninguém a servir como testemunha, atravessamos a aldeia, e passamos para a outra margem do rio através de uma ponte. Seguimos ainda uma série de quilómetros até ao próximo ponto de interesse. Na “Cancela do Miradouro” o destaque é todo para o Monte Farinha e para o Santuário da Senhora da Graça.
Segue-se depois uma longa descida para reencontrar as Fisgas de Ermelo, agora de outra perspectiva. Voltamos a parar para comer, enquanto apreciavamos em vertigem, o voo de várias aves ao longo do desfiladeiro. Nas Piócas de Baixo experimentamos finalmente a temperatura das águas do rio, tiramos o pó que acumulamos no corpo e repousamos largos minutos. Faltavam apenas 2 kms de caminho. Voltamos a cruzar o rio na Ponte da Abelheira, seguindo-se a subida final, cruzando uma série de campos agrícolas até à aldeia do Ermelo.
Já eram quase seis horas quando chegamos, a aldeia do Ermelo continuava igual e no mesmo sítio. Ainda bem, não queremos que ela mude, podemos precisar de voltar a qualquer momento.