Passaram quase 8 anos desde que assistimos à histórica eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos. Com 47 anos, Obama chegou à chefia daquela, que na altura, era a maior economia do mundo. Num país onde as questões raciais ainda estão muito longe de ser ultrapassadas, ser o primeiro afro-americano a chegar ao cargo político nº1 nos EUA, carregou a sua eleição de um maior simbolismo.
Obama não teve apenas o mérito de cativar o eleitorado norte-americano, mas o seu carisma, o seu discurso motivador e a sua postura ligeiramente mais informal em relação a anteriores candidatos, conseguiu cativar o resto do mundo.
“Quarenta e quatro americanos já fizeram o juramento presidencial. As palavras foram pronunciadas durante marés ascendentes de prosperidade e nas águas plácidas da paz. Mas de vez em quando o juramento é feito entre nuvens carregadas e tempestades violentas. Nesses momentos, a América seguiu em frente não apenas por causa da visão ou da habilidade dos que ocupavam os altos cargos, mas porque nós, o povo, permanecemos fiéis aos ideais dos nossos antepassados e leais aos nossos documentos fundamentais. Assim foi. Assim deve ser para esta geração de americanos.”
Dava a sensação que finalmente, em pleno século XXI, estavamos na presença de uma figura com capacidade para mudar a história, à imagem de Luther King, Winston Churchill ou Gandhi. Quando ouviamos Obama, surgia uma centelha de esperança que, de facto, era possível ainda existir um lider mundial consensual, com capacidade de unificar o mundo. Depois de um dos presidentes mais nefastos da história do país, como George W. Bush, o novo líder prometia revolucionar paradigmas e corrigir os erros da anterior admistração.
“Que estamos no meio de uma crise hoje, é bem sabido. A nossa nação está em guerra, contra uma ampla rede de violência e ódio. A nossa economia está gravemente enfraquecida, uma consequência da cobiça e da irresponsabilidade de alguns, mas também do nosso fracasso coletivo em fazer escolhas difíceis e preparar o país para uma nova era. Lares foram perdidos; empregos, cortados; empresas, fechadas. O nosso sistema de saúde é demasiado caro; as nossas escolas falham para muitos; e cada dia traz novas evidências de que as formas como usamos a energia reforçam os nossos adversários e ameaçam o nosso planeta.”
Excertos do discurso de Barack Obama na tomada de posse como presidente dos Estados Unidos da América
Obama anunciava a saída das tropas do Iraque e Afeganistão, o encerramento da prisão de Guantánamo, um recomeço na relação com os muçulmanos e lançava ideias para uma relação diferente com a América Latina. O mundo assistia em êxtase ao aparecimento de um novo Messias, capaz de tirar o pecado do mundo. Ainda com poucos meses de presidência, o Comité Nobel apressou-se a atribuir-lhe o Prémio Nobel da Paz “pelos seus extraordinários esforços com vista a reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos” e porque graças à iniciativa de Obama, “os EUA desempenham agora um papel mais construtivo na abordagem dos grandes desafios das alterações climáticas que o mundo enfrenta” e “a democracia e os direitos humanos serão reforçados”.
Mas na verdade ao longo destes oito anos o que é que Obama mudou de significativo nos EUA? Nada. Vamos aos factos.
O processo caótico da retirada das tropas do Iraque e Afeganistão, e apesar da neutralização de Bin Laden, deixou um território ingovernável para os ocupantes, e para muitos, causou um dos grandes factores para o rápido crescimento do DAESH.
Obama, em dois mandatos, vai conseguindo esvaziar Guantánamo, sem a conseguir fechar. Quando chegou à Casa Branca, em 2008, havia 242 presos na base norte-americana em Cuba. A sua proposta passava por levar os detidos para países terceiros, ou caso não fosse autorizado, para prisões de alta segurança nos Estados Unidos. Contudo, o congresso dominado pelos republicanos bloqueou esse plano. Obama tem tentado pelo menos transferir todos os detidos cuja entrega a outros países foi autorizada. Apesar do esforço para fechar este dossier, o mais provável é que acabe na secretária do seu sucessor. Donald Trump, por exemplo, já se comprometeu a encher a prisão de “tipos maus” e recuperar as práticas de tortura.
Outra das bandeiras do presidente americano passava por uma reforma migratória, mas Obama nunca conseguiu contornar a falta de apoio no congresso, para criar uma estratégia de alteração do sistema migratório de um país onde mais de onze milhões de pessoas vivem sem documentos. A reforma do sistema nacional de saúde, conhecida também por Obamacare, ainda não conseguiu convencer a maioria da opinião pública e por isso mesmo, caso haja uma vitória republicana nas presidenciais, é um legado que poderá sofrer um duro revés.
Barack Obama sabe que a sua presidência poderá ter sido uma desilusão. Foi no ínicio deste ano que assumiu, em lágrimas, mais um insucesso, ao anunciar as medidas para o controlo de venda de armas nos EUA. Defendeu que o direito a ter armas – garantido pela constituição – não pode ser mais importante que o direito à vida, e chorou ao lembrar as vítimas de assassinatos em massa. Obama reconheceu que as propostas têm efeito limitado e mais uma vez convocou o congresso para agir e mudar a lei.
As lágrimas de Obama reflectem também os oito anos de várias boas propostas que viu cairem por terra, reflectem o assumir da derrota perante os interesses económicos, o partido republicano e consequentemente ao “lobby” das armas, que bloquearam o caminho de inúmeras medidas positivas para o país, que mais do que dar um salto económico, permitiam que o país desse um enorme salto cultural. Infelizmente, a lição que a admistração Obama nos deixa, é que não chegam boas ideias e boas intenções. Talvez nunca tenham chegado. Confirmamos que nem Obama, um dos políticos mais bem intencionados da história, teve a capacidade de mudar o paradigma da sociedade em que vivemos. Percebemos, e agora sem margem para dúvidas, que são realmente os grandes grupos económicos que governam o mundo. Talvez, o verdadeiro legado de Obama, foi o facto de nos ter ensinado a deixar de ser ingénuos e com esse conhecimento adquirido, de nos permitir criar bases para que possamos ser mais conscientes no tipo de escolhas que fazemos no nosso dia-a-dia.
Obama terá sido apenas fruto da vaidade de uma América que tem o prazer de mostrar uma imagem de vanguarda ao mundo. Elegeu o primeiro presidente afro-americano e agora quer eleger a primeira mulher para o cargo. É o marketing do sonho americano a funcionar.