Muitas vezes uma viagem pode servir para resgatar da memória lembranças passadas de outros tempos. Foi em Agosto de 1996 a primeira vez que cruzei uma fronteira. Nunca mais vou esquecer-me da incrível experiência de naquele final da manhã de Verão, cruzar a fronteira da Namíbia com o Botswana. Na verdade a fronteira que cruzei foi de Valença, para Tuí, em Espanha, mas naquela idade o simples facto de sair de Portugal pela primeira vez dá uns ares de aventura épica a esta lembrança.
Foi um passeio clássico em família, com destino a Vigo, seguindo depois a costa da Galiza até encontrar o rio Minho, para mais uma estreia, andar de barco, e uma descoberta avassaladora, que os carros também podem andar de barco. Chegamos a Caminha e regressamos a casa. Estava ansioso por contar a alguém que fui a Espanha e que sabia dizer “gracias”.

Passados exactamente vinte anos volto a Caminha, vila raiana encravada entre a foz do rio Minho e do rio Coura. Estacionamos junto ao rio Minho e subimos para conhecer as muralhas, aproveitar a vista e respirar fundo. A respiração profunda deteta ao longe a possibilidade de haver castanhas assadas nas proximidades. Seguimos-lhes o rasto. Chegamos ao coração de Caminha para conhecer o famoso Chafariz, a Torre do Relógio, a Igreja da Misericórdia e claro, a senhora das castanhas. Percorremos as ruas do centro histórico até à Igreja Matriz. Entretanto chega a hora de almoço e pergunto a uma senhora à porta de casa onde é que se come bem na sua terra. Das três ou quatro sugestões escolhemos aquela que se anunciava como adega. Em caso de dúvida decidimos sempre por lugares com o nome de tasca ou adega. Depois de almoço fomos esticar as pernas até ao parque 25 de Abril, na margem do rio Coura e caminhamos até à ponte ferroviária.


Para chegar à praia de Caminha, atravessamos a Mata Nacional do Camarido, mandada plantar por D. Dinis, ligando a Foz do Minho a Moledo. Estamos em finais de Outubro e estão quase 30 graus, é oficialmente o melhor Outono de todos os tempos.
Na praia, o protagonismo divide-se entre olhar para o monte cónico de Santa Tecla, em terras Galegas, ou o Forte da Ínsua, a 200 metros da costa. Construído no século XVII, sob o reinado de D. João IV, o forte serviu para defender o Convento de Santa Maria de Ínsua, que se encontra na praça de armas, e reforçar a defesa da costa portuguesa durante a Guerra da Restauração. Mas a maior curiosidade da ilha é mesmo a existência de uma nascente de água doce, que continua a brotar do solo rochoso.
Para quem tiver tempo, o ideal seria fazer a viagem no comboio da linha do Minho e descobrir lentamente as muitas paisagens inigualáveis do litoral minhoto. A nossa viagem seguiu ao longo da estrada nacional 13, que não desilude, principalmente à passagem da praia do Moledo.
Cerca de 7 quilómetros depois, chegamos a Vila Praia de Âncora para uma pequena paragem, passear nas margens do rio Âncora, conhecer a praia e lamentar não ser surfista.
A viagem continuou ao longo da EN13 até Viana do Castelo. Resistimos à tentação de ir ao centro comer uma Bola de Berlim do Natário, para subir ao Monte de Santa Luzia e apreciar melhor as cores do final do dia.
Para fechar em beleza esta jornada no Alto Minho, ainda restou tempo para revisitar Ponte de Lima, uma das vilas mais antigas de Portugal. Será sempre um prazer atravessar a ponte e percorrer as margens do rio Lima, principalmente no Outono, acompanhado por mais um cartucho de castanhas e pelo estalar das folhas secas no chão.
