um sítio para fugir

Paul Auster sobre a descoberta de si através da viagem

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“Todas as minhas economias foram aplicadas na viagem: dinheiro recebido como prendas de aniversário, de final de curso, de bar mitzvah, mais as pequenas quantias que guardara dos meus empregos de Verão – mais ou menos mil e quinhentos dólares, não me lembro da importância exacta. Estávamos no tempo da “Europa a Cinco Dólares por Dia”; e se soubéssemos gerir os nossos fundos com cuidado, era realmente possível conseguir viver assim. Passei mais de um mês em Paris, hospedado num hotel que me custava sete francos por noite; viajei pela Itália, Espanha e Irlanda. Perdi uns dez quilos em dois meses e meio. Em todos os lugares para onde ia, trabalhava no romance que tinha começado a viver naquela Primavera. O manuscrito desapareceu, graças a Deus!, mas a história que trazia na cabeça nesse Verão não era menos real para mim do que os lugares para onde ia ou as pessoas com quem me cruzava. Tive alguns encontros extraordinários, sobretudo em Paris, mas o mais comum era estar sozinho, às vezes excessivamente sozinho, ao ponto de ouvir vozes dentro da minha cabeça. Só Deus sabe o que pensar agora daquele rapaz de dezoito anos. Eu vejo-me como um enigma, um campo de inexplicáveis inquietações, uma espécie de criatura imponderável e de olhos desvairados, talvez ligeiramente desequilibrada e propensa a desesperados e alterosos sobressaltos interiores, a reviravoltas inopinadas, desfalecimentos, pensamentos sublimes. Se alguém me abordava da maneira certa, sabia ser franco, encantador e positivamente gregário. De outro modo, era fechado e taciturno, quase ausente. Acreditava em mim e, ao mesmo tempo, não tinha confiança nenhuma em mim. Era ousado e tímido, lesto e desastrado, coerente e impulsivo: em suma, um monumento ambulante as espírito da contradição. A minha vida mal começara e eu já seguia em duas direcções ao mesmo tempo. Ainda o ignorava, mas para chegar a algum lado ia precisar de trabalhar duas vezes mais do que qualquer outra pessoa.”

Paul Auster – Da Mão Para a Boca

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