um sítio para fugir

Apontamentos de uma viagem de ida – Luis Sepúlveda

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“Sabia que a fronteira estava perto. Mais uma fronteira, mas não a via. A única coisa que interrompia o monótono entardecer andino era o reflexo do sol numa estrutura metálica. Ali terminava La Quiaca e a Argentina. Do outro lado ficava Villazón e o território boliviano.

Em pouco mais de dois meses percorrera o caminho que une Santiago do Chile a Buenos Aires, Montevideu a Pelotas, São Paulo a Santos, porto onde as minhas possibilidades de embarcar rumo à África ou à Europa foram por água abaixo.

No aeroporto de Santiago os militares chilenos carimbaram o meu passaporte com um enigmático “L”. Ladrão? Lunático? Livre? Lúcido? Não sei se a palavra “empestado” começa por “L” nalguma língua, mas a verdade é que o meu passaporte provocava repugnância de cada vez que o mostrava nalguma companhia naval.

– Não. Não queremos chilenos com passaporte com “L”.

– Pode dizer-me que diabo significa o “L”?

– Vamos lá, o senhor sabe melhor do que eu. Boa tarde.

Na contrariedade fazer boa cara. Tinha tempo, todo o tempo do mundo, por isso decidi embarcar no Panamá. Entre Santos e o Canal havia uns quatro mil quilómetros por terra, mas isso são favas contadas para um tipo com vontade de fazer caminho.

Empoleirado às vezes em autocarros a cair aos bocados, em camiões e em comboios lentos e abarrotados fui até Asunción,  a cidade da tristeza transparente, eternamente varrida pelo vento de desolação que se arrasta vindo do Chaco. Do Paraguai regressei à Argentina e, atravessando o desconhecido país de Humahuaca, arribei a La Quiaca, com a intenção de prosseguir viagem até La Paz. Depois… bom, depois ver-se-ia. O importante era aguentar os tempos de medo da mesma forma que os barcos no alto-mar aguentam os temporais costeiros.

Sentia-me fustigado por aqueles tempos de medo.

Em cada cidade em que me detive visitei amigos conhecidos ou fiz tentativas de novas amizades. Salvo poucas excepções, todos me deixaram o espírito amargurado por um sabor uniforme: as pessoas viviam em e para o medo. Faziam dele um labirinto sem saída, acompanhavam de medo as conversas, as comidas. Até os factos mais insignificantes elas revestiam com uma prudência impudica e, à noite, não se deitavam para sonhar com dias melhores, ou passados, mas sim para se precipitarem no lamaçal de um medo obscuro e espesso, um medo de horas mortas que ao amanhecer as tirava da cama olheirentas e ainda mais atemorizadas.”

Luis Sepúlveda – Patagónia Express

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