Highlands – Escócia – Quando for grande quero ter um “Braveheart”

Cenários idílicos, toda a gente tem os seus. Normalmente o mar é aquele que mais corações faz suspirar por uma casa ou apenas uma janela que permita o seu vislumbre. Para outros, o objectivo será uma vista para um rio ou um grande lago, ou talvez para uma infinita extensão de quilómetros de vinha, numa quinta de uma região demarcada qualquer. Corações mais cosmopolitas sonham com amplas janelas do seu 37º andar com vista panorâmica para os arranha-céus vizinhos, ansiando o cair da noite para se deixarem hipnotizar pelas luzes da cidade. Eu, sonho com cenários inóspitos, o mais possíveis. Sonho com terras de ninguém, frias, muito frias, com chuva e vento (daquele que nos empurra para trás). Uma casa de madeira no meio do nada, o crepitar do fogo na lareira, café bem escuro fervido numa chaleira velha, livros, um gira-discos, e uma televisão que se liga sozinha apenas para dar o Benfica e o Preço Certo. É pedir muito?

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As terras altas da Escócia nesta altura do ano são a personificação daquilo que a maior parte de nós pode esperar da vida, uma boa dose de trevas, compensada por breves minutos de gloriosos raios de sol, e tudo isso pode ser confirmado num dia de viagem. Em poucos quilómetros a nossa disposição varia consoante a diferença de cenário e de tempo. Um dia de viagem não chegará para captar a verdadeira essência de uma região como esta, ainda para mais se a volta for feita num autocarro com outros turistas, que não pára nos sítios onde queremos, e que quando o faz, dá-nos 5 ou 10 minutos para nos deslumbrarmos à pressa. São as regras do jogo.

O Patrick, o guia daquela expedição, compensa essas falhas com o seu texto aperfeiçoado ao longo de uns prováveis 30 anos a desempenhar aquela função de guia nas Highlands. Timing perfeito nas piadas, principalmente no que toca a ferir o orgulho dos ingleses, localização sobre onde foram filmadas algumas cenas de filmes que estão no nosso imaginário, aproveitando todas as oportunidades para explicar o quão incorrecto é o filme “Braveheart” em relação à verdadeira história. Com toda a sua experiência, mesmo assim não teve capacidade para captar a atenção das turistas alemãs à nossa direita, que daquele dia quando chegarem a casa podem contar da loucura que foi passar um dia de autocarro na Escócia entre longas sonecas, divertidos vídeos de gatinhos, e variadas fotos com o reflexo do vidro da janela do autocarro.

O tour incluía passagem por Glencoe, Rannoch Moor, Black Mount, Ben Nevis (a maior montanha do Reino Unido), Inverness (a capital das Highlands), e claro, o famoso e místico Loch Ness. O Patrick avisa que se não virmos o famoso monstro que habita aquelas águas, é porque não bebemos a quantidade de whiskey suficiente. Eu, com as misturas que fui fazendo ao longo daqueles dias, não vi Nessie, mas juro que aquilo que vi foi isto, e foi ainda mais assustador.

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Lionel Nessie, o monstro. Foi aterrorizante!

Se eu fosse um drone talvez lá do alto tivesse achado o Lago Ness mais bonito. Das suas margens a vista não é muito especial, e se alguém nos viu a cair de costas junto às suas águas, não foi deslumbramento, foi mau cheiro.

A viagem ainda prosseguiria por mais algumas horas passando por locais de uma paisagem estonteante, mas fugaz, porque o autocarro prosseguia a sua marcha implacável rumo a Edimburgo. As mais de 13 horas de autocarro promoveram em mim um desejo de libertação, fazendo com que finalmente compreendesse com toda a intensidade o último fôlego de William Wallace no final de “Braveheart” quando lhe pedem uma última palavra.

Gritei pelo mesmo, mais alto ainda, e o som da minha voz pulverizou as ruas do centro da cidade, fez explodir gaitas de foles, levantar kilts, entornando copos de cerveja e whiskey à sua passagem. Esperava uma reacção furiosa do povo escocês ao caos provocado pelo meu grito de liberdade. Mas juntaram-se a mim, e durante toda aquela noite a palavra “Liberdade” foi proclamada em todos os Pubs da cidade ao estilo de William Wallace, o herói nacional da Escócia.

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