“De criança, ansioso por sair de casa e ir para longe, a imagem que tenho na mente é de fuga – a minha pequena pessoa a correr precipitadamente sozinha. A palavra “viagem” não me ocorria, nem a palavra “transformação”, que era o meu desejo inconfessado mas permanente. Queria descobrir um novo eu num local distante, e coisas novas por que me interessar. A importância de alhures era algo em que acreditava. Alhures era o local onde queria estar. Demasiado jovem para ir, lia cerca de alhures, fantasiando acerca da minha liberdade. Os livros eram a minha estrada. E depois, quando tinha idade suficiente para ir, as estradas por onde viajei tornaram-se o tema obsessivo dos meus próprios livros. (…)
O desejo de viajar parece-me caracteristicamente humano: o desejo de nos mexermos, de satisfazermos a nossa curiosidade ou aliviarmos os nossos medos, de mudarmos as circunstâncias da nossa vida, de sermos um estranho, de fazermos um amigo, de experimentarmos uma paisagem exótica, de arriscarmos no desconhecido, de testemunharmos as consequências, trágicas ou cómicas, das pessoas possuídas pelo narcisismo de diferenças sem importância. Tchekov disse: “Se tens medo da solidão, não te cases.” Eu diria: se tens medo da solidão, não viajes. A literatura de viagem mostra os efeitos da solidão, umas vezes desolada, mais frequentemente enriquecedora, de vez em quando inesperadamente espiritual. (…)
Como adulto a viajar sozinho em lugares remotos e isolados, aprendi muito acerca do mundo e de mim mesmo: a estranheza, a alegria, a libertação e a verdade da viagem, a grande solidão – que sofrimento em casa – é a condição de um viajante. “
Paul Theroux – A Arte da Viagem