um sítio para fugir

Inquietações – A curiosidade, o riso e os cliques.

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Quando Trump nos Estados Unidos começou a desempenhar o seu papel de candidato às eleições primárias do partido republicano, começou a desenhar-se um projecto de anedota que se foi desenvolvendo primeiro na comunicação social e depois alastrando a piada através do combustível das redes sociais. A curiosidade e a vontade de rir geram cliques. E a cada clique, os jornais e as páginas online perceberam que Trump vende, e era importante dar-lhe destaque, não interessando a qualidade do conteúdo. Uma foto com seu icónico penteado e um título qualquer chegavam para o milagre da multiplicação dos cliques. A bola de neve começou a sua viagem montanha abaixo transformando-se numa avalanche de notícias verdadeiras ou falsas, memes, gifs, graçolas, montagens, sketches e um sem número de desabafos largados pelos utilizadores das plataformas digitais.

Agora a anedota é real e perdeu a graça toda.

(Não a última, mas a primeira ceia de Trump e seus apóstulos)

Rir de Trump, na verdade, terá contribuído para o seu sucesso, e o erro neste caso foi dar-lhe atenção. Cada piada, cada discurso anti-Trump, era mais uma deixa para os seus famosos tweets. Trump é um jogador que só sabe jogar no contra-ataque.

Rir é importante, e a capacidade de o fazer, principalmente nas adversidades é essencial, para que pelo menos durante os breves segundos em que a nossa cara se enruga e o nosso corpo se contorce, nos esqueçamos da desgraça que está por vir.

Com o riso, atrasamos ligeiramente o caos. Mas como em tudo na vida, devemos rir, mas não fazer disso um vício, até porque o humor não resolve nenhum dos nossos problemas.

“Muitas pessoas consideram que o humor é uma arma poderosíssima, por exemplo no sentido em que pode influenciar decisivamente referendos e eleições. Essa convicção não se baseia em factos, mas numa sensação. Pelos vistos, o humor tem o poder de convencer algumas pessoas de que tem verdadeiro poder. Entre essa gente crédula contam-se, por exemplo, ditadores, que o temem a ponto de o proibir. Parece que, na Alemanha nazi, havia tribunais especiais para julgar os cidadãos que chamassem Adolfo ao seu cavalo. Se tivesse assistido às eleições americanas, talvez Hitler ponderasse a introdução de algumas modificações neste capítulo do código penal. 
O candidato mais violentamente escarnecido da história da sátira política foi eleito presidente dos Estados Unidos. Nada mau, como documento do poder do humor.”

Ricardo Araújo Pereira – Revista Visão

O artigo completo segue aqui:

http://visao.sapo.pt/opiniao/ricardo-araujo-pereira/2016-11-24-O-poder-do-humor-e-nao-ter-poder-nenhum

É um erro pensar que uma piada pode ditar o rumo dos acontecimentos, e aquilo que está a acontecer nos EUA é o exemplo de como uma piada se pode virar contra nós, ou até de fazer de nós a própria piada. Porque rir e reflectir são dois verbos que nem sempre se associam, e enquanto apenas nos rimos, o objecto do nosso riso aproveita essa publicidade para levar a sua mensagem ao seu bom porto.

Porque é que damos tanta atenção a pessoas que não interessam?

Em Portugal temos a sorte de ter uma classe política relativamente equilibrada (no estilo), mas não podemos dizer o mesmo do fenómeno desportivo, ou melhor, futebolístico, ou melhor, futeboleiro. Se não fosse dada tanta atenção aquilo que a maioria dos dirigentes dos clubes de futebol diz ou faz (mesmo que seja só para fazer piadas), talvez eles falassem cada vez menos e eventualmente se calassem, e assim voltassem também para a gruta de onde saíram, baixando os níveis da poluição sonora ou da mais recente poluição digital que também é prejudicial à nossa saúde.

O primeiro passo, é clicar menos, mudar de canal, aguentar a curiosidade ou bloquear se possível, tudo aquilo que não acrescenta nada às nossas vidas. Porque eu acredito que quem fala sozinho, eventualmente acabará por se calar.

Nós somos o combustível de todas estas personagens sensacionalistas que tomaram de assalto a nossa praça pública. A cada clique ou comentário, elas sobem mais um degrau na sua própria escada do poder sem qualquer receio da queda estrondosa provocada por um deslize aquela altura. Até porque a nossa memória está cada vez mais curta, e juntando uns pozinhos mágicos dessa coisa a que chamam de pós-verdade, qualquer um que tenha caído, consegue levantar-se em três tempos. Se Valentim Loureiro em Portugal consegue, qualquer um consegue:

http://expresso.sapo.pt/politica/2017-05-31-Valentim-Loureiro-recandidata-se-a-Gondomar-como-independente

Se continuarmos a achar que gozar ou rir de alguém é impedi-lo do que quer que seja, vamos ainda ter algumas surpresas.

As escolhas que fazemos no nosso dia a dia bem como a informação que escolhemos consumir poderá fazer pequenas mudanças no mundo que vivemos e até melhorar o estilo, as decisões e forma de estar daqueles que nos representam nas mais variadas áreas.

A moderação na vida nunca fez mal a ninguém. Talvez seja um caminho para um mundo melhor, 1% melhor pelo menos. Deixemos a intensidade para outras coisas, o amor, a arte, para as viagens, para exigir os nossos direitos se for o caso, ou apenas e só para gritar bem alto naquele momento em que a nossa equipa marca finalmente o golo da vitória.

I hate to say it, but each other’s all we got

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