Tenho vergonha da ignorância, por isso luto contra a minha desde que nasci. Ela continua a ganhar o combate obviamente, mas resta-me pelo menos a consolação de ter a capacidade de a detectar e de não me deixar acomodar à sua presença. Não sei se isso será uma benção ou uma maldição, mas prometo a mim mesmo todos os dias não desistir dessa luta.
Nesse capítulo, julgo ser uma espécie de Maxi Pereira. Sei que nunca chegarei àquela bola e que ela sairá pela linha de fundo, mesmo assim, esfarrapo-me todo para tentar apanhá-la, deslizo de carrinho já com a bola fora das quatro linhas, para bater com todo o estrondo com os joelhos nos placards publicitários. Levanto-me, disfarço a dor e corro atrás da bola outra vez.
Mas lidar com a ignorância de outros, é outra história.
A ignorância será tão antiga como o Homem, pois já nasce com ele, mas o desenvolvimento tecnológico do século XXI democratizou o acesso e proliferação de fenómenos de insipiência de grau elevado. Não exististem mais fenómenos agora do que antigamente, simplesmente são mais divulgados, ou melhor, os ignorantes e os exploradores da ignorância têm mais ferramentas para se multiplicar.
Por isso mesmo já não basta ter de levar com a minha, relativamente controlada, para todos os dias levar com a desgovernada ignorância de outros. E bem que podemos tentar dela fugir, mas dela não nos conseguiremos esconder. Para espíritos mais efervescentes, eis o meu glorioso truque, que me vai permitindo manter valores mínimos de sanidade. Considerem o cenário:
Num tenebroso dia de chuva, protegidos numa paragem de autocarro, esperamos pelo veículo que nos irá levar ao emprego. Passa um animal qualquer que pára à nossa frente para se sacudir e nos encher de lama. A fúria impele-nos a agir, mas o que podemos fazer? Bater no animal? Obviamente que não. Insultá-lo? Ele não vai perceber. E tentar fazê-lo compreender que o seu comportamento está incorrecto também será uma perda de tempo. A minha escolha: Esquecer o assunto, abanar ligeiramente a cabeça talvez, ignorar o ignorante.
Bem sei que esta técnica poderá ser considerada um acto de cobardia, mas prefiro pensar que ignorar um ignorante é um valoroso acto de personalidade e coragem. Mas falamos daqueles ignorantes de trazer por casa, os corriqueiros, do nosso dia a dia. Quando falamos daqueles que influenciam o rumo das nossas vidas, aí, o assunto fica mais sério.
Vivemos uma época difícil. Crise económica, terrorismo, racismo, fascismo, Trumpismo. Quase tudo fenómenos associados a níveis de ignorância elevados. No papel, o mundo deveria ser um lugar melhor por esta altura, mas a evolução das sociedades é cíclica e no momento vivemos um retrocesso, uma época em que os avanços tecnológicos e o seu marketing associado vende todos os dias uma ideia de facilidade, mas que na verdade, apenas amplifica a crónica insatisfação que o ser humano padece.
A insatisfação muitas vezes resvala por um caminho da radicalização, que tanto pode ser de acções, ou apenas opiniões. É difícil encontrar por estes dias pessoas equilibradas com quem conversar, dou de caras frequentemente com opiniões radicais sobre qualquer coisa. Deverá existir um mecanismo qualquer no cérebro que bloqueia e rejeita qualquer tipo de argumento que seja contrário àquilo que um dia nos fizeram acreditar. Quando realmente perdemos a capacidade de ouvir, de sairmos da nossa zona de conforto e nos limitamos apenas a viver dentro dos limites do nosso pequeno mundo, a ignorância arranja terreno fértil para florescer. Religião, política e o futebol são os exemplos maiores disso. Não existe nenhum argumento, nenhuma prova, por mais cabal que possa ser, que faça uma pessoa deixar de acreditar no seu deus, no seu partido político ou nas angelicais decisões do seu adorado clube de futebol.
João Pereira Coutinho resolve muitas vezes esse problema optando por deixar-se falar sozinho:
“Falo sozinho com frequência? Precisamente: tenho longas conversas que, às vezes, terminam com zanga séria. Desde logo porque é difícil conversar com alguém hoje em dia. Mesmo com pessoas próximas, com quem partilhamos tudo – trabalho, casa, saliva, doenças – é mais complicado do que parece (…)
Hoje é o contrário: as pessoas falam, sim, mas raramente conversam. Qual a diferença? Falar é coisa utilitária, que começa e acaba com um propósito comum. Conversar, não: desde logo porque “conversar” implica dois sentidos. Falamos e escutamos. E falamos. E escutamos. Como uma dança que precisa de dois parceiros: dois parceiros que avançam e recuam pelo simples prazer de dançar. Existe disputa. Mas existe também a natureza vagabunda de uma conversa: a forma como vai deambulando pelas ruas da intimidade sem ninguém saber exactamente como, para onde, ou porquê (…)
Boris Fausto cita as festas de sociedade, onde as pessoas não conversam: vão disparando frases, tentando vencer a resistência do alarido. Vou mais longe: a cultura do ruído surgiu e instalou-se, precisamente, para esconder a vacuidade das pessoas. Para esconder, no fundo, como os seres humanos se tornaram desinteressantes. Nada para dizer. Nada para escutar. Às vezes, o ruído em volta é até um alívio (para eles) e uma benesse (para nós).”
João Pereira Coutinho – Colunista da Folha de S. Paulo – Excertos retirados do livro “Avenida Paulista”
A medo da solidão impele-nos a procurar alguém com quem estar, por isso falar sozinho nunca será uma solução eficaz. Ler, viajar, apreciar arte no geral, e parar para pensar sobre ela, podem ser ferramentas úteis para nos dar perspectivas diferentes sobre assuntos que não dominamos, e expandir horizontes. Parar para pensar é capaz de ser mesmo uma boa ideia.
Mas não há nenhuma fórmula milagrosa que resolva este problema, bem ou mal, a ignorância prevalecerá, terá sempre uma palavra a dizer. Cada um de nós terá de desenvolver a sua forma de lidar com ela, de lhe dar luta, e criar dentro de si uma espécie de um inconformado Maxi Pereira, um lateral uruguaio de sinal saliente no canto da boca, que nunca, mas mesmo nunca, dá uma bola como perdida, mesmo que o jogo já tenha acabado e as luzes do estádio estejam apagadas. Ele continuará sempre à procura dela.