um sítio para fugir

Pedradas no charco e as suas ondas de expansão

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Desde criança que desenvolvemos um fascínio qualquer por atirar pedras para a água, para fazer ricochete (para os mais habilidosos), mas principalmente para ver a água engolir a pedra,  provocando uma ondulação em círculo na superfície que vai aumentando à medida que os segundos passam.

Stephen Hawking aproveita esse exemplo, de uma pedra num tanque, para tentar-nos explicar o processo de propagação da luz no cosmos, mas descarado como sou, roubo-lhe o exemplo, usando-o para reflectir sobre a perda de capacidade da maioria das pessoas em conseguir agitar as águas em que se movem à medida que se tornam adultos.

Hawking é também um bom exemplo nesse capítulo, tendo sido alguém que nunca se deixou acomodar pela sua difícil condição física para nunca deixar de tentar fazer a diferença no mundo. Claro que não é possível ambicionarmos todos fazer a diferença a um nível planetário, mas podemos sempre ter a ambição de fazermos por ser diferentes na esfera mais pequena onde nos movimentamos todos os dias.

Aliás, o segundo capítulo da “Breve História do Tempo” de Stephen Hawking é dedicado ao tema “Espaço e tempo”, e por lá o consagrado cientista resume que “na teoria da relatividade não existe qualquer tempo absoluto: cada indivíduo tem a sua medida pessoal de tempo, que depende do local onde está e da maneira como está a mover-se”, isto é, de certa forma, como decidimos viver, como nos movimentamos, o local onde escolhemos estar e a forma como nos relacionamos com ele terá alguma influência (milimétrica obviamente) naquilo que projectamos ser. Se agarrarmos aquilo que Hawking tenta dizer, e nos basearmos na nossa experiência pessoal, podemos mesmo confirmar que a noção de tempo, por exemplo, varia à medida que crescemos.

João Pereira Coutinho padece de um mal que a todos nos afecta. Envelhece. E numa crónica a que chamou “Vida breve”, reflete sobre a sua experiência de ser humano que não caminha para novo.

“(…) Caminho para os 40. E, com uma nitidez arrepiante, sinto que o tempo acelera como nunca. Aos 10, aos 20, o tempo passava com um ritmo mais lento. O ano académico era longo. As férias de Verão, também. E os dias, cada dia, tinham minutos que duravam horas e horas que duravam semanas.

Subitamente, os dias encolheram. E, com os dias, as horas e as semanas. Como explicar o fenómeno? (…) O tempo acelera porque os nossos dias, tomado pelas rotinas próprias da vida adulta, surgem despojados da variedade dos verdes anos. Aos 10, aos 20, o nosso roteiro biográfico mudava. Constantemente. Imprevisivelmente. As férias de Verão eram longas porque eram cheias. O ano académico era longo porque as aulas, os estudos, mas também o reencontro com os amigos e os estragos na companhia deles, faziam de cada dia uma refeição completa.

Aos 40, aos 50, a refeição torna-se repetitiva – casa, trabalho, casa. De tal forma que os dias nos parecem cópias uns dos outros. E, talvez por isso, concentrados e consumidos num único sopro (…)

Será que a minha vida rotineira precisa de alguma adrenalina suplementar? Ou o envelhecimento do corpo é um facto – e a atitude mais inteligente é parar de correr atrás da criança que eu fui e que leva sempre vantagem sobre os meus passos mais lentos?

São perguntas que se dissipam no frio. Até porque há presentes de Natal para comprar. Curioso: Natal. Falta um mês para celebrar a data e eu podia jurar que ainda ontem a estava a celebrar.”

Folha de S. Paulo – 25 de Novembro de 2014

Resumindo: o comodismo, a rotina, a preguiça, a insatisfação, subserviência talvez, a insegurança, demasiada ambição ou a falta dela, ganham destaque à medida que nos vamos tornando ainda mais adultos. As cópias dos dias sucedem-se e a nossa memória aglutina essas recordações todas numa pequena gaveta. Vivemos menos. Se no passado aspirávamos à excelência, depois, já só queremos uma vida normal. E vidas normais geralmente não são fonte de grandes histórias para contar. Pedradas no charco precisam-se!

Se não o conseguirmos sozinhos, deixemo-nos influenciar por alguns bons agitadores que andam por aí a lutar para nos fazer ver as coisas de uma perspectiva diferente. Existem alguns indivíduos deste planeta que são especialistas a fazê-lo, por vezes, Darren Aronofsky parece-me ser um desses tipos.

Darren Aronofsky é um realizador americano que faz parte da minha lista de amigos imaginários com quem de longe a longe tenho profundíssimas conversas. Falamos sempre em português que é para eu me expressar melhor.

Conheci-o através da sua segunda longa-metragem “Requiem for a Dream”, e perguntei a mim mesmo o que era aquilo que acabara de ver. Seguiu-se “The Fountain”, um festim para os sentidos, uma película para deixar o espectador de olhos e boca aberta no final sem perceber muito bem o que ali se passou, e por isso tornando-se num filme divisor de opiniões. Depois assistimos ao resgate de Mickey Rourke das catacumbas de Hollywood em “The Wrestler” que lhe valeu algumas nomeações para os Óscares e finalmente consegue em “Black Swan” com Natalie Portman, uma apreciação mais global da crítica que o fez voltar a ver o seu trabalho nomeado para os prémios da academia. Faltando-me ainda assistir ao seu primeiro filme, “Pi” (1998), e a “Noé” (2014), já sinto segurança para dizer que Aronofsky será sem dúvida um dos meus realizadores favoritos.

Ainda para mais depois de no último fim de semana ter assistido ao seu último trabalho, Mother!, com Jennifer Lawrence e Javier Bardem nos principais papéis.

O que é que ele resolveu fazer?

Decidiu basear-se na Bíblia, desde o Génesis até ao Apocalipse, colocou um casal numa casa no meio do nada, e criou uma metáfora de múltiplas camadas onde desbaratou sobre a forma como tratamos o planeta ou como nos relacionamos com a religião. Dito assim parece redutor o que Aronofsky fez neste filme, mas acrescento: temos Adão e Eva, Caim e Abel, Deus e a Mãe Natureza, o menino Jesus e o Papa, todos juntos, entrando à vez numa mansão rural isolada para representarem a decadência e a perversidade humana.

O filme começa devagar, muito devagar, com os elementos de estranheza a serem inseridos com pinças, e aos poucos vamos percebendo que aquilo que achávamos que o filme era, já não o vai ser. O meu sobrolho começa a franzir-se de intriga e grande parte do público da sala de cinema começa a mostrar sinais de desconforto e incompreensão. Até que na segunda parte do filme a metáfora toma proporções épicas, surreais e apocalípticas, entrando numa espécie de montanha russa sem segurança, e onde finalmente percebemos que o nosso papel não é apenas ser o espectador daquele filme, nós somos os culpados de tudo aquilo que está a acontecer à personagem de Jennifer Lawrence, nós somos os agressores.

O final do filme é fechado, apresenta-nos uma conclusão clara, e que poderá não agradar a todos. Mas os artistas nem sempre têm de nos agradar, têm também a obrigação de nos mostrar aquilo que não conseguimos ver, apesar de estar à frente dos nossos olhos. A provocação também faz parte das regras do jogo.

Terminado o filme saio da sala em silêncio para tentar recuperar rapidamente da experiência, bato palmas mentalmente, e recordo-me daquelas vozes que se levantam todos os anos a dizer que o cinema morreu.

A isto eu chamo uma pedrada no charco, quando alguém assim de forma estrondosa nos faz repensar assuntos que achávamos bem resolvidos na nossa cabeça. Mas, apesar da força com que algumas pedras são atiradas, todos sabemos que a tendência da água é voltar ao normal passados poucos segundos, ficando a pedra esquecida para sempre no seu fundo. Continuando adultos aborrecidos, aproveitemos estes impulsos e as suas ondas de expansão, no mínimo, para sermos arrastados para um outro lado do charco.

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