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José “El Chapo” Sócrates e as limitações da democracia

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Com nome de filósofo grego, Sócrates, o mais nefasto político da democracia portuguesa, terá encontrado algures na sua adolescência, ou talvez mais tarde na época da sua fictícia licenciatura, numa citação de um outro filósofo francês, René Descartes, a oportunidade de apropriar-se da sua mais icónica frase, e através de um “pastiche” mal amanhado encontrar o grande lema motivacional que terá acompanhado toda a sua vida: “Roubo, logo existo.” Na verdade, a vida torna-se mais fácil quando descobrimos aquilo que gostamos mesmo de fazer. Mérito a José Sócrates por ter descoberto o seu caminho.

O sucesso político de Sócrates será um caso de estudo no nosso país, porque eram já evidentes, durante o seu “pontificado”, que estávamos perante um Messias, no mínimo, pouco honesto.

Neste caso do ex-primeiro-ministro português, João Miguel Tavares numa das suas últimas crónicas no jornal “Público” reflecte sobre o fenómeno:

“Neste momento marcante da História de Portugal, em que um ex-primeiro-ministro é acusado de 31 crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e falsificação de documento, convém recordar que José Sócrates não caiu da tripeça por causa dos portugueses, que finalmente perceberam quem ele era. Caiu por causa da crise internacional, da falência do país e da vinda da troika. Sócrates obteve 36,6% dos votos em 2009 (mais de dois milhões de pessoas), já depois da revelação da licenciatura fraudulenta e das manobras para impedir a publicação de notícias; já depois da exibição do DVD do caso Freeport onde Charles Smith declarava que ele era corrupto; já depois de correr com Manuela Moura Guedes do programa de informação mais visto da TVI por não apreciar o estilo e as reportagens. E mesmo após a crise internacional, a falência do país e a vinda da troika, José Sócrates ainda conseguiu obter 28,6% de votos para o PS – 1,57 milhões de portugueses. Em 2015, depois de quatro anos de brutal austeridade, António Costa obteve somente mais 180 mil votos do que José Sócrates em 2011.”

https://www.publico.pt/2017/10/11/politica/opiniao/socrates-nao-merece-cair-sozinho-1788559

E se as eleições de Sócrates parecem já um episódio longínquo nas nossas memórias, esquecido propositadamente ou não por alguns, o sucesso de indivíduos como Trump nas presidenciais americanas, ou Nigel Farage na vitória do Brexit, volta a colocar em xeque as limitações e desvantagens do regime democrático em que vivemos.

A questão que se coloca é a seguinte: Haverá algum sistema político melhor que a democracia, que permita uma escolha mais equilibrada e sensata daqueles que nos governam? Não sei responder. Mas este princípio de dúvida começa já a ser explorado por alguns estudiosos que vão partilhando possíveis soluções, ou pelo menos com o lançamento das suas ideias vão tentando alertar-nos para os problemas do nosso actual sistema.

Jason Brennan é um cientista político americano, nascido em 1979, doutorado em Filosofia pela Universidade do Arizona, sendo actualmente professor associado na Universidade de Georgetown, em Washington. Numa entrevista à revista Visão, Brennan apresenta algumas conclusões do seu livro “Contra a Democracia”, onde “defende que a democracia não só não é o melhor dos regimes (à exceção de todos os outros, prosseguindo com a citadíssima frase de Churchill), como se tem revelado muito pouco eficaz. Argumenta ainda que a democracia é, de forma irrealista, julgada pelas suas intenções e não pelos seus resultados. Concorde-se ou não, as suas ideias podem ajudar a explicar a encruzilhada de populismos a que temos assistido nos países ocidentais.”

http://visao.sapo.pt/atualidade/entrevistas-visao/2017-10-08-Do-mesmo-modo-que-nao-queremos-os-bebados-a-conduzir-tambem-nao-queremos-os-ignorantes–a-votar

Da entrevista destacam-se ainda as opiniões de Brennan sobre o tipo de pessoas que votam nas eleições, bem como o porquê de não ser a favor do voto obrigatório como já existe em alguns países:

“Naturalmente que as pessoas que se interessam mais por política também são aquelas que participam mais nos atos eleitorais. Tendem a estar mais informadas, mas também a ser extremamente preconceituosas. Interessam-se imenso sobre o seu próprio partido e veem os seus adversários, membros dos outros partidos, como se fossem estúpidos, uma espécie de encarnação do mal. Não possuem, digamos, uma mente muito aberta. Pelo contrário, os eleitores que não votam costumam ter opiniões fracas e muito poucos conhecimentos. Resumindo, basicamente, temos: pessoas preconceituosas altamente motivadas e pessoas ignorantes e desmotivadas. E são estes os dois grupos que existem numa democracia.”

“ (…) ao contrário do que é habitual dizer-se, o voto obrigatório não traz grandes benefícios. Não precisamos que toda a gente vá votar, há maneiras mais baratas de o fazer, basta selecionar 20 mil pessoas, não é preciso forçar 10 milhões ou 210 milhões, como acontece nos Estados Unidos da América, a ir votar. Quando obrigamos todos os cidadãos a ir votar, estamos a inundar as urnas com os eleitores menos informados e ignorantes. E isso não é bom. Do mesmo modo que não queremos pôr os bêbados a conduzir, também não queremos pôr os ignorantes a votar.”

O programa Greg News da HBO Brasil também já dedicou todo um programa a esta questão, onde Gregório Duvivier, conhecido principalmente pelo seu contributo no projecto “Porta dos Fundos”, através de exemplos sobre a caótica realidade política brasileira, afirma que um possível sistema político baseado num sorteio, acabaria por provavelmente levar à liderança de um estado alguém mais capaz, ou pelo menos mais equilibrado, do que aqueles que o actual sistema de eleições tem tendência a promover.

O que todas estas opiniões ignoram é que todos os sistemas políticos já existentes, ou aqueles que poderão vir a ser implementados, serão todos passíveis de ser corrompidos. Seja qual for a pessoa escolhida, nada nos garante que qualquer representante do poder político não possa ser limitado ou coagido de alguma forma pelos interesses económicos dos grandes tubarões do mundo da finança. E quando digo coagido, tanto falo da usual utilização de pagamentos de luvas ou subornos, mas também à possível existência de ameaças à integridade física aos próprios ou a familiares dos indivíduos em posições de liderança política. Daí que mais do que pensar em alterar o sistema político em vigor, necessitemos talvez de incrementar ou pelo menos tentar exigir mais medidas que garantam uma maior supervisão do actual sistema, mas que proteja com mais eficácia os seus supervisores.

Bem sei que falar é fácil, mas terá de existir alguma forma de promover mais autonomia e protecção ao sistema judicial e também jornalístico para que a balança do poder político possa ficar mais equilibrada. Porque só uma supervisão exaustiva e punições exemplares para os prevaricadores poderá de alguma maneira limitar a acção destes elementos nocivos que controlam os Estados.

Mas aí encontramos outro problema: Como é que podemos exigir uma Justiça com mais qualidade e isenção, e legislação que proteja com mais eficácia o estatuto do jornalista, se muitas vezes quem escreve as leis são elementos dos quais suspeitamos da sua idoneidade? Porque não podemos apenas contar com a coragem de certos juízes, funcionários do ministério público, polícias ou jornalistas para que se faça justiça, indivíduos que numa sociedade ideal, não deveriam ter de apelar à sua coragem para desempenhar correctamente as suas funções.

Ver a série “Narcos” da Netflix, para já com três temporadas, é um exercício que nos revela os bastidores, ou o lado B da nossa sociedade, no caso da série, com total enfoque na realidade norte americana e da América latina. E se aquela realidade nos parece bastante excêntrica, vista assim de longe, e protegidos por um ecrã de computador, na verdade, numa escala bastante menor claro, vivemos todos os dias no nosso país em paralelo com esse submundo. Simplesmente enganamo-nos a nós próprios, ou propositadamente fazemos por não ver esse outro lado, porque gostamos de ter a consciência tranquila, mas também, por sermos impotentes porque não confiamos na protecção do sistema em que vivemos.

Javier Peña, um dos principais personagens da série, é apresentado sempre como um dos únicos elementos incorruptíveis da história, mas que para o conseguir fazer terá abdicado de uma vida familiar, pois já sabemos que gostar de alguém, em algumas profissões, será sempre um ponto fraco.

As obras de ficção tem tendência de romantizar as personagens dos justiceiros, sempre solitários, perseverantes, corajosos, (normalmente bonitos e sempre muito bem penteados), fazendo o leitor ou o espectador sonhar em ser alguém assim na vida real. Mas o livro termina, ou os créditos do filme aparecem, e lembramo-nos novamente que aquela vida não é a nossa, e que, a nossa ambição para o dia seguinte, é que o dia corra normalmente, e que ninguém nos venha chatear a cabeça.

Charles Bukowski, pelo contrário, é daqueles escritores que manda o romantismo às favas e foi sempre a jogo para falar de todos aqueles ou de tudo que ninguém quer falar. Termino com um dos seus desabafos, sobre a democracia, que não preciso de pensar muito para concordar:

 “Um dos malefícios da Democracia é que o voto universal garante a escolha de um líder universal que guiará o povo para a apatia universal!” (Ham on Rye – Pão com fiambre – Charles Bukowski)

NOTA FINAL: Hoje, 15 de Outubro de 2017, é notícia a apresentação do novo livro de José Sócrates na cidade do Porto para uma plateia de cerca de 400 pessoas. A notícia do Expresso termina dizendo: “José Sócrates chegou ao hotel com 25 minutos de atraso, tendo sido recebido com aplausos e incentivos, tendo centenas de pessoas afirmado – Sócrates amigo, o povo está contigo.”

e já agora…

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