um sítio para fugir

AS REVOLUÇÕES, REVOLTAS E REBELDIAS DA VILA DE ÓBIDOS

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Numa manhã que começou tarde, porque tarde o sono na noite anterior chegou também, a luz e a temperatura de um sol de outono atípico suscitaram um desejo repentino de uma excentricidade qualquer. Num dia já quase a meio, os primeiros quilómetros de uma viagem de mais de duzentos começaram a ser ultrapassados, e o propósito não poderia ter sido mais simples. Ouvir pessoas a falar sobre livros.

O carisma da vila medieval de Óbidos é evidente logo que desfazemos a última curva da estrada que finalmente nos permite o seu primeiro vislumbre. As muralhas serpenteiam a encosta de toda a montanha, unindo-se ao castelo, envolvendo uma mancha de casas brancas apertadas umas em cima das outras. Do lado de lá das muralhas, sabemos logo onde encontrar o lugar ideal para recuperar da viagem e recarregar baterias para as horas de revolução que se seguiriam.

O Festival Literário Internacional de Óbidos vai no seu terceiro ano, mas só nesta terceira edição visito a vila literária, para ouvir escritores, jornalistas e artistas a falar das suas obras e da sua visão sobre a história, a actualidade e os seus possíveis caminhos.

Gostava de dizer que o meu amor pelos livros foi à primeira vista, que desde muito novo senti o impulso de me deixar mergulhar nas obras dos melhores autores, ou que era a leitura que ocupava a maior parte das minhas horas de recreação. Mas dizer isso seria reescrever a minha história. A minha relação com os livros é de amor, sim, mas daquele que só acontece à segunda vista, e porque acredito que o amor mais verdadeiro só acontece dessa forma, ao segundo olhar, fico assim em paz com o meu passado adolescente entorpecido por horas intermináveis de uma programação televisiva de qualidade duvidosa.

Para isso terá contribuído em muito o Adriano, amigo dos verdes anos, que aos 18 já tinha devorado obras que ainda hoje não me posso vangloriar de ter lido. Pedi-lhe um livro emprestado e apresentou-me o “Budapeste” de Chico Buarque. Perguntei-lhe se o livro era bom ao que respondeu “Há livros que lemos pela sua história, e há outros que lemos por serem bem escritos. Este é muito bem escrito”. O Adriano nasceu em África, na Guiné acho eu. Filho de pai português e mãe brasileira, raízes que obrigatoriamente o destacavam numa freguesia de tradição operária da periferia do Porto. Vivia com o pai em Portugal e visitava a mãe nos meses de verão no Brasil. Foi depois de uma dessas viagens que regressou com o cabelo descolorado, e ao entrar na escola pela primeira vez foi como se alguém tivesse carregado no botão de pausa que bloqueou toda a gente, menos ele que continuava em movimento. Não satisfeito, passados um ou dois meses pintou o cabelo de azul, talvez ainda antes da Wanda Stuart ter a mesma ideia. O monitor do seu computador era personalizado com o nome das suas referências musicais, escrito a caneta de acetato, ocupando toda a base branca do monitor ao redor do ecrã. Nomes que iam desde Sérgio Godinho, the Doors, Chico Buarque, Creedence Clearwater Revival, talvez Caetano Veloso, e outros que já não tenho a certeza de ter visto ou não. Hoje ele é dos poucos que ainda vou sabendo alguma coisa, não porque tenhamos mantido contacto, mas porque esporadicamente o apanho ora na televisão, nas ondas da rádio, ou nos seus desabafos online a defender as suas causas. Aquilo que ele é hoje deverá ao que começou a ler e a ouvir naqueles anos. E aquilo que algum dia eu talvez possa vir a ser, espero também que possa ser influenciado pelos autores que fui coleccionando desde aquela época.

Voltando a Óbidos e ao FOLIO. Num festival literário numa vila medieval de ruelas apertadas como esta, é quase uma obrigatoriedade darmos de caras inesperadamente com alguns dos autores mais conhecidos ainda antes das suas palestras. Subitamente sou obrigado a recorrer a um movimento digno de uma das melhores cenas do Matrix para não esbarrar com Gregório Duvivier mesmo à porta da Capinha D’Obidos. Antes disso, assistimos à conversa de João Gobern com Manuel Alegre, que tentou perceber a importância de alguma da obra de Alegre no caminho revolucionário português que levou ao 25 de Abril de 1974. Depois, rápida passagem pelo espaço onde estava Afonso Cruz para lhe dizer um “olá, tá tudo” imaginário, para assistir ainda à última meia hora da conversa de Bernardo Pires de Lima e Rui Tavares sobre o actual momento da Europa. A estrelas de rock deste dia de FOLIO actuavam às 19:00 na Praça da Criatividade. Ricardo Araújo Pereira e Gregório Duvivier à conversa numa sala a abarrotar para falar do seu trabalho, de humor, obviamente, fazendo rir falando dele, e onde principalmente se exploraram as diferenças da nossa língua em Portugal e no Brasil. Recorro à discrição da última fila de cadeiras para assistir aquela conversa, para não deixar os convidados nervosos com a minha presença e claro, para assim evitar tirar-lhes qualquer tipo de protagonismo.

No final as solicitações para fotografias e autógrafos multiplicam-se, não a mim, claro, mas ao Ricardo e ao Gregório. Bato em retirada para lhes deixar mais oxigénio disponível para respirar. Uma fotografia, ou uma assinatura num livro serve-me de nada, o que me dava jeito, na verdade, era mesmo ser amigo deles.

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