um sítio para fugir

As 5 melhores experiências em cinema deste ano

Anúncios

LA LA LAND

Muita gente diz não gostar de musicais, e por isso muitos quiseram colocar antecipadamente La La Land numa gaveta, ou entraram obrigados na sala de cinema, mas com a crítica já escrita e resumida a duas meras palavras “Não gosto”.

Eu também sentia o mesmo, mas em relação a fígado de porco. Não gostava e até o próprio cheiro incomodava-me a quilómetros de distância. Mas um dia, sem eu pedir, serviram-me um prato de fígado com compota de cebola e vinho do porto e a coisa aconteceu. Estranhei, mas depois revolução houve em mim que depôs o ditador gastronómico que dizia, fígado “jamais”, para um novíssimo democrata do sabor que disse, fígado “até se come”.

Bem sei que não é nada fácil gostar à partida de um filme que se chame La La Land, principalmente porque há qualquer coisa no nome que nos remete automaticamente para o universo dos Teletubies. Dá a sensação que vamos assistir a um biopic da personagem Lala da série infantil.

Ultrapassados estereótipos, esta obra de Damien Chazelle (um ano mais velho que eu, raios) é um espectáculo com momentos de puro entretenimento, doses equilibradas de humor, e um certo grau de profundidade. Depois de realizar o excelente “Whiplash”, o realizador volta a navegar nas ondas do jazz para contar uma história de amor no mundo do espectáculo, fazendo de quem assiste invejar não ser a personagem de Ryan Gosling ou Emma Stone. Apesar de, por natureza, ser um indivíduo muito controlado, saí disparado da sala de cinema após o filme acabar, e saltei para cima das mesas da zona de alimentação do shopping para protagonizar um momento épico de sapateado mesmo à frente das chamas dos fogões do restaurante “Wok to Walk”. Foi incrível, mas ninguém deu por ela, estavam todos colados no ecrã do telemóvel.

 

MANCHESTER BY THE SEA

Vivemos num tempo em que começamos a ter informação suficiente para aprender que não devemos idolatrar ninguém, mas sim, limitarmo-nos apenas a apreciar a qualidade do trabalho dos artistas ou de qualquer outra pessoa de uma área que para nós seja uma paixão. Toda a gente tem telhados de vidro, menos eu obviamente, que sou um cidadão modelo incorruptível, absurdamente simpático, honesto, sensível q.b., e acima de tudo, um pedaço de mau caminho.

Assisto a Manchester by the Sea desconhecendo ainda os rumores de assédio sexual associados a Casey Affleck, o que me permitiu ter um olhar mais desempoeirado ao trabalho do actor neste filme de Kenneth Lonergan.

Alguns argumentistas já perceberam que, mesmo contando histórias de dor ou perda, é necessário inserir momentos de boa disposição, mesmo que fugazes, porque no fundo ao fazer isso estão verdadeiramente a fazer um paralelismo com a vida real, porque não há história de vida alguma, por mais difícil que seja, que não tenha momentos de alívio provocados por um sorriso ou uma boa gargalhada para os mais expansivos.

A premissa do filme é simples: Joe Chandler (Kyle Chandler) morre, e o seu irmão mais novo Lee (Casey Affleck) tem de regressar à sua terra natal para cuidar do sobrinho. Depois ao longo da história vamos viajando no tempo aqui e ali para conhecer o contexto que faz de Lee ser a pessoa que é, percebendo assim o porquê da sua reacção a certos acontecimentos. Uma nota especial para a banda sonora de Lesley Barber que confere a algumas cenas do filme um lirismo que parece encarnar os estados de alma dos personagens.

Polémicas à parte, qualquer prémio recebido por Casey Afleck pelo seu trabalho neste filme, estará bem entregue.

MOTHER!

Era uma vez Adão, Eva, Caim, Abel, Deus, a Mãe Natureza, o menino Jesus claro, e o Sumo Pontífice, o Papa. Todos, vão entrando à vez numa mansão rural isolada para representar uma metáfora de decadência e perversidade humana.

Neste filme, Darren Aronofsky é o construtor de uma empreitada bíblica maior que as Pirâmides do Egipto. Interessados? Neste link falo um pouco mais sobre as impressões daquilo que vi:

https://umsitioparafugir.wordpress.com/2017/09/27/pedradas-no-charco-e-as-suas-ondas-de-expansao/

THE SQUARE

Um dos meus principais problemas com o cinema português ou mesmo com a produção artística no nosso país vem do facto de eu não encontrar na maioria das obras um reflexo minimamente fidedigno do estado do país, ou se quer uma crítica assumida aos milhentos problemas que o nosso país produz diariamente. A nossa arte fala sobretudo em amor e na falta dele, na solidão, nos estados de alma do artista, e claro, na palavra do nosso vocabulário que mais temos orgulho, e que não nos cansamos de explicar a quem nos visita o quanto ela é exclusiva da língua portuguesa: a saudade. Salvo raras excepções, dificilmente encontramos exercícios artísticos sobre a pobreza, económica e de espírito, sobre corrupção ou corporativismo. Depois de uma troika, de crises e truques da banca, da falta de emprego e de perspectivas de futuro, de mais uma fornada de novos emigrantes, de famílias obrigadas a comunicar pelo ecrã de um tablet, têm sido poucos aqueles que vêm nestes temas assuntos sérios para esmiuçar e através do seu talento clarificar ou abrir os horizontes de quem assiste à sua obra.

Em The Square, do sueco Ruben Östlund, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, a visão do realizador começa por parecer focar-se numa sátira ao mundo da arte, principalmente da arte contemporânea, mas com a passagem do tempo percebemos que as intenções do filme são muito maiores. São camadas e camadas de referências, de retratos e opiniões sobre aquilo que o realizador vê de errado numa Suécia que para nós, habitantes de um país do sul da Europa, habituamo-nos a ver como exemplo de eficiência e vanguardismo cultural e económico. Lá para o meio do filme, aproveite para responder à pergunta que o realizador lhe faz quando questiona o espectador se confia ou não nas pessoas, antes de saber o resultado de uma possível resposta.

PATERSON

Deixo para o fim o filme com o qual tive a melhor experiência em cinema este ano. Não será a melhor película de 2017 para uma maioria, para outros poderá mesmo ser um filme irrelevante, mas para mim, Paterson foi o filme que mais me terá marcado neste ano que termina. E como já escrevi aqui anteriormente, quando falava de Cannes,

https://umsitioparafugir.wordpress.com/2016/09/23/cote-dazur-tudo-pode-dar-certo-parte-2/

acredito que o que define se gostamos muito ou não de um filme, será o grau proximidade que temos com ele, isto é, a capacidade de nos identificarmos com a história, com uma personagem, ou simplesmente quando uma série de frases de um diálogo descodificam uma ideia que há muito pairava na nossa cabeça.

Obra de Jim Jarmusch, Paterson é um filme sobre nada e sobre tudo. Porque retrata a vida rotineira de um homem que dorme, come, trabalha, passeia o cão até ao bar mais próximo, que apoia todos os excêntricos projectos da namorada, e que pelo meio arranja espaço para explorar o seu talento invulgar para escrever poesia. Poesia que não escreve para partilhar, que escreve apenas por prazer ou necessidade, para o seu bem-estar, onde descreve a coisas que vê no seu dia-a-dia em casa ou através da janela do autocarro que conduz diariamente. Adam Driver é Paterson, que é também o nome da localidade que habita.

Este é um filme que nos impele, ou que nos ensina a procurar a beleza nas mais pequenas coisas, é uma voz serena e pausada personificada na forma de Adam Driver ler os seus poemas, que nos apazigua num mundo superficial e barulhento. Este filme aparece nas salas de cinema, como um Salvador Sobral no ruído da Eurovisão. Não tenho nada contra fogo de artifício na música ou no cinema, porque ainda me vou permitindo dias de festa sempre que posso, simplesmente, se é para gostar, se é para escolher um favorito, ou se é para aprender alguma coisa, prefiro sempre as obras que têm verdadeiramente um conteúdo que depois de o apreendermos, nos fazem sentir melhores pessoas.

Anúncios

Anúncios