um sítio para fugir

Último Fandango em Paris

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Na minha caixa de memórias guardo vestígios daquilo que eu já fui, ou melhor, guardo pedaços de matéria que me fazem viajar para um tempo em que sendo eu aquele que revisito, na verdade, parecia ser outra pessoa.

Viajo no tempo em busca de fragmentos que me façam compreender aquilo que sou agora, porque só hoje, no presente, conseguimos distância para decifrar que influência certos episódios tiveram no processo de crescimento que vivemos.

É a memória que faz aquilo que somos. Seja dolorosa, feliz ou assim-assim, é a lembrança das vivências acumuladas que define os traços que vincam a nossa personalidade.

Podemos perder um pedaço do corpo, o cabelo, ou até a nossa cara pode mudar, mas continuamos a ser nós próprios desde que nos lembremos de quem somos.

As cidades também mudam com a passagem do tempo, mas no fundo nunca deixam de ser o que são. Mesmo que um conflito qualquer destrua a maioria das referências de um lugar, há um carácter intrínseco que subsiste sempre aquando da sua reconstrução. Não sei se são as pessoas que a habitam que fazem o carácter da cidade, ou se é a cidade que com o tempo molda quem a habita. Inclino-me para acreditar na influência das pessoas. Se a Torre Eiffel, o Sacré Coeur, o Louvre, Notre-Dame e o Quasimodo desaparecessem de Paris, a cidade continuaria a ser cativante. Porque o que faz verdadeiramente Paris ser Paris são as suas esplanadas sempre ocupadas faça chuva, sol, vento ou frio, é o amor pela arte que brota em cada artéria da cidade, nas dezenas e dezenas de ateliers de pintura e escultura, nos retratistas da Place du Tertre, nos pequenos cinemas, teatros e museus, e no som dos acordeões que tocam os velhos clássicos franceses. Para não esquecer também boulangeries com infinitas opções de baguettes, com bancadas de doces capazes de amolecer até os corações dos mais tiranos, e das lojas que vendem queijos que jamais pensaria existir.

Apesar da submissão tecnológica dos tempos que correm, ainda se encontram em Paris alguns que resistem ao smartphone e que aproveitam o tempo, mesmo no aperto da hora de ponta da viagem de metro, para avançar umas páginas na letra miúda dos livros de bolso dos seus autores favoritos.

A capital francesa é aliás um lugar onde muitos escritores aprenderam definitivamente a escrever, onde muitos dos melhores pintores aprenderam a pintar, e cozinheiros a cozinhar.

Paris é a cidade do amor, e é também a cidade luz que neste gélido mês de Dezembro, influenciada pela quadra natalícia, transforma a sua equação para cidade luz ao quadrado. Os Campos Elísios cintilam desde a roda gigante até ao Arco do Triunfo, e as pessoas (mais rápidas que os ciclistas da Volta a França) sobem e descem os passeios junto às lojas das melhores marcas para encherem os sacos com produtos que lhes prometem um fugaz banho de confiança.

A Torre Eiffel vai sempre espreitando o movimento da cidade ao seu redor, ela que não se cansa da atenção que os milhões de turistas lhe dedicam em todos os seus anos de vida, que os recebe a todos de bom grado, e que até perdoa aqueles que acreditam nas potencialidades do flash do telemóvel para iluminar a sua silhueta em fotos nocturnas.

O boletim meteorológico avisara para a proximidade de um resto de semana cinzento e de uma chuva capaz de amedrontar espíritos menos aventureiros. Os homens do tempo não se enganaram. O orçamento foi obrigado a esticar para a aquisição de um guarda-chuva, que para mim será recordado com eterna saudade como o pior guarda-chuva de todos os tempos, aquele que em breves instantes de utilização transfigurou-se numa enigmática espécie de instalação artística contemporânea sob as nossas cabeças.

Do Louvre não havia grandes expectativas à partida, mas para além de perceber o que faz daquele museu ser um dos mais famosos e visitados do mundo, havia também a vantagem de aquele ser um espaço abrigado onde não chove.

Apesar da infinita colecção de obras que abrangem oito mil anos de cultura e civilização do nosso planeta, o sucesso do museu assenta principalmente na fama de três peças. A Mona Lisa, a Vitória de Samotrácia e a Vénus de Milo. O melhor mapa para encontrar estas obras é seguir as pessoas. Não são de certeza as obras mais belas do mundo, nem se quer aquelas onde se denota uma maior técnica, mas o contexto histórico em que se inserem, os mitos criados à volta da peça e do seu autor, ou simplesmente manobras de marketing, associam a estas obras de arte uma fama digna de uma estrela de rock. E a lead singer Mona Lisa é sem dúvida a grande cabeça de cartaz do festival do Museu do Louvre, ela que apesar de pequena, leva o público à loucura com o seu misterioso sorriso, aguentando a pose durante todo o espectáculo, enquanto os fãs histéricos se atropelam na primeira fila para tirar fotos, mostrar cartazes com propostas indecentes, e atirar-lhe peluches e roupa interior. Isto foi o que eu vi, não foi ninguém que me contou. No final ela vira-se para nós e diz-nos telepaticamente que somos o melhor público do mundo, e eu respondo “tá bem, dizes isso a todos”.

Inspirados pelo cinema de Jean-Luc Godard e Bernardo Bertolucci fugimos rapidamente daquela confusão correndo de mãos dadas ao longo dos corredores do museu ao estilo de “A Bande à part” de 1964 e ao “The Dreamers”, 2003.

De regresso à chuva e com os pés já devidamente enlameados pelo piso do Jardin des Tuileries, com o Rio Sena à nossa esquerda, tento reflectir sobre o que faz algumas destas obras aparentemente banais adquirir um estatuto de obra-prima. Como qualquer outra vertente artística dos dias de hoje não é a nível de sucesso que define a qualidade da obra. Não são os melhores músicos que vendem mais, nem os melhores escritores, e é quase nunca que o Óscar de Melhor Filme é o melhor filme americano do ano. Na pintura e na escultura acontecerá o mesmo fenómeno. Claro que há exemplos de obras de qualidade inegável e de grande sucesso comercial, mas serão excepções. Acima de tudo devemos esforçar-nos por pensar pela própria cabeça, seguir a nossa intuição e aos poucos construir uma sensibilidade artística que esteja aberta para encontrar a beleza das coisas fora das correntes do mainstream.

Do outro lado do Sena, o Museu de Orsay é uma opção para nós mais interessante, menos concorrida e mais barata para quem quiser aproveitar uma passagem por Paris. Um edifício construído originalmente para ser uma estação de comboios, inaugurado em 1900 para a Exposição Universal, com o tempo foi perdendo a sua utilidade como equipamento de transportes públicos, para em 1986 ser inaugurado naquele espaço um museu. Pintura, escultura, arte decorativa, fotografia, e desenho, o Museu de Orsay apresenta a evolução da arte ocidental de 1848 a 1914. Isso significa que artistas como Van Gogh, Monet, Cézanne, Degas, Rodin, Henri Toulouse-Lautrec e outros de que nunca ouvi falar, têm naquelas paredes um espaço relativamente mais calmo para serem apreciados. Relativamente mais calmo, porque a febre fotográfica já não é exclusiva como antigamente das excursões de japoneses, agora é uma fenómeno global.

Na última noite, na volta para o nosso abrigo num pequeno hotel em Montmartre, tento atrasar o sentimento de nostalgia que se apodera de nós quando se aproxima do fim a estadia num lugar que nos encantou.

(Agora que finalmente conheço Paris, consigo perceber o porquê de José Sócrates querer ter casa aqui. Se eu tivesse um amigo tão generoso como ele, também não dizia que não.)

Para a minha caixa de memórias seguirá mais uma futura lembrança:

Naquela semana de vésperas de Natal, o mais belo e tradicional fandango português foi dançado e sentido por dois portugueses absolutamente desavergonhados, numa homenagem às suas raízes, e numa tentativa de aquecer os corações de quem nos acompanha através de um sensual bailado, renovando dessa forma os votos para que toda a gente se divirta neste Natal.

E já que falamos de memórias, e de Paris, nunca é demais relembrar esta prendinha:

Bom Natal a todos.

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