Bem ou mal todos nós somos actores. Pensando bem, isso não será nada de extraordinário, se o Paulo Pires consegue, qualquer um de nós consegue. A diferença está, claro, entre ser bom ou mau actor.
Quase todos os dias somos confrontados com pessoas que acham que aquilo que têm a dizer é importante e que lhes devemos dar toda a atenção. Tenho uma certa atracção não voluntária por pessoas assim. Confrontado com uma dessas situações, automaticamente sou obrigado a accionar uma espécie de escuta activa, que através de curtas interjeições e ligeiros acenos de cabeça, vou simulando interesse, permitindo simpaticamente que o interlocutor de ocasião ganhe fôlego para continuar o seu interminável monólogo.
Na minha cabeça emerge ao mesmo tempo a silhueta daquilo que imagino ser a minha ampulheta da vida, que nessa projecção parece verter a areia do tempo que me resta a uma velocidade vertiginosa.
Antes de mais, apenas salientar que a técnica da escuta activa não está ao alcance de qualquer um, e mesmo um profissional do ramo como eu, comete distracções fatais, que criam momentos de grande tensão quando por qualquer motivo, ao fazerem-me uma pergunta, continuo a abanar a cabeça em silêncio e com o meu mais angelical sorriso. Dando conta da situação mantenho o olhar fixo no interlocutor o máximo tempo possível, disfarçando o pânico, na esperança que ele diga mais alguma coisa, e não dizendo, resta-me apenas romper o silêncio quase sempre perguntando: “E o que dizem os teus olhos?”.
Em dias de boa disposição ainda consigo manter a atenção uns bons cinco minutos, inserindo com pinças expressões como “Ai é”, ou “Pois é verdade”, “Fogo”, ou mesmo “Jasus, que perigo”. Às vezes entusiasmo-me, e arrisco uma frase maior, cometendo até a loucura de dar uma curta opinião sobre um assunto. Mas a expressão facial do orador rapidamente se contrai, resultando num ligeiro sorriso a meia haste, num seco “tá bem”, e num intenso olhar com a mensagem subliminar de “não me interrompas”, arrancando imediatamente para o continuação do seu raciocínio anterior como se eu nada tivesse dito.
Noutras ocasiões semelhantes, o meu coração pára, e fico sem respirar durante alguns segundos sempre que alguém, muitas vezes à mesa durante uma refeição, decide mostrar um conteúdo qualquer do seu telemóvel que lhe pareça interessante. Conteúdo que não se destina apenas a ser visto por uma pessoa, mas por todos os convidados, que deverão ajeitar-se da melhor forma possível para apreender da melhor forma aquele alucinante vídeo viral, ou para conhecer mais um capítulo das rocambolescas aventuras do cão de família. Quando as condições físicas da divisão não permitem o acesso geral ao conteúdo, o telemóvel deverá passar de mão em mão, para em grupos de dois, o acesso à informação reproduzida naquele pequeno ecrã seja de mais fácil acesso. E é de muito mau tom dizer que já conhecíamos aquele vídeo, vai revelar um ar de sobranceria da sua parte que será preferível evitar.
Muito mais fácil quando a interacção com um destes indivíduos de elevado grau de chatice acontece através de um telefonema. Aproveitando a funcionalidade da alta voz, costumo aproveitar o tempo para finalmente fazer algumas arrumações em casa, para relaxadamente voltar a ler aquela revista esquecida em cima da mesa, ou até aproveitar o tempo para fazer todo um treino funcional das Dicas do Salgueiro. No fim, resta-me pelo menos a consolação de ouvir da parte de quem me fala, que foi mais uma vez muito bom conversar comigo, e que devíamos voltar a combinar qualquer coisa para breve.