um sítio para fugir

Silêncios em Vias de Extinção

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Algumas vezes procuramos silêncios, outras vezes encontrámo-los sem querer. Depois há de quem deles fuja por medo ou constrangimento, e outros até que vivem envolvidos por ele sem dar pela sua existência.

A era moderna inventou uma nova forma de camuflar o silêncio, ou de pelo menos reinventá-lo. A informação emerge em catadupa em dispositivos electrónicos que absorvem a atenção de quem os tem, que até podem desbloquear conversas por breves segundos, mas que envolvem novamente o seu portador numa bolha multidimensional onde o conceito de silêncio não existe.

Não, o telemóvel não é o diabo, e agradeço todos os dias ter um, para quando necessário, simular chamadas urgentes sempre que sou abordado por um comercial do Citibank. Solução bem melhor, considero, do que como outras pessoas, que à distância começam a fazer aquela curvinha preventiva de forma a contornar o imaginário raio de acção do indivíduo, fazendo-as muitas vezes quase colar-se às vitrines das lojas.

Partilhar confortavelmente os silêncios é das experiências mais intimas que podemos ter com alguém. Numa curta viagem de carro durante a noite sem o rádio ligado, durante uma refeição qualquer, ou nos primeiros minutos de uma manhã de fim de semana em que inventamos mentalmente motivações para sair da cama. Muitas vezes num domingo à tarde sentados na varanda de casa com um sol de Inverno que cheira a Primavera, ou talvez numa caminhada de vários quilómetros de um trilho que naquele dia parece ter sido inventado só para nós.

Como os dias estão cada vez mais barulhentos, e as noites menos dormidas, aproveitar o nosso tempo livre para contrabalançar com algum recato os níveis de ruído a que todos os dias estamos sujeitos, poderá ser uma forma inteligente de enganar a chegada de novos cabelos brancos.

Escolhendo a época e o dia certo, a Mata Nacional do Buçaco pareceu-me ser um lugar especial para a actividade dos caçadores de silêncios. Calmamente, desde a vila do Luso, é possível desfrutar de duas ou três horas de caminhada ao longo de uma mata centenária, onde a banda sonora dos nossos passos se faz apenas através dos sons da natureza.

Mesmo sem o Éder, terá sido em terrenos próximos destes trilhos, que os portugueses, auxiliados por forças britânicas, resistiram e venceram a Batalha do Buçaco em 1810, arruinando os planos do General Massena, que liderava a 3ª invasão napoleónica ao nosso país.

Napoleão Bonaparte, que já tinha mandado personalizar um coche com as cores da bandeira francesa e letras garrafais a dizer “Campeões da Europa”, ficou desolado, e durante a semana seguinte lambeu as suas feridas, não dando sinal de vida algum no Facebook, nem no Twitter. Voltou às redes sociais oito dias depois publicando um auto-retrato dizendo que “Você nunca sabe a força que tem, até que a sua única alternativa é ser forte”.

No epicentro da Mata Nacional foi construído o Convento de Santa Cruz do Buçaco. Mais tarde o mesmo seria parcialmente demolido para dar lugar ao Palácio Real, prosseguindo depois a sua mutação para o actual Palace Hotel do Buçaco, que apesar de todas estas mudanças continua a ser um monumento absolutamente obrigatório para quem passar por aqueles lados.

Um par de horas depois regressamos, esperando já no Luso pela oportunidade de beber água numa das fontes públicas da vila, junto às termas, onde uma meia dúzia de pessoas enchiam dezenas de garrafões para se abastecerem para uma semana nas suas actividades domésticas. Enchemos o nosso meio litro, e arrancamos novamente para um canto silencioso qualquer. A noite cai, e num céu limpo de Inverno a lua e as estrelas acendem-se…

Sempre que olho para o céu em noites assim, lembro-me de Carl Sagan, grande divulgador científico norte-americano, que apesar de não ter chegado até mim a tempo de me influenciar positivamente a ser cientista, não deixou de ser importante para me dar uma sempre útil lição de humildade.

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