um sítio para fugir

Existir ou não existir, eis a questão

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Existem teorias que nos tentam convencer que o som só existe se houver alguém para o ouvir. Um gira-discos deixado a tocar sozinho, não havendo ninguém para captar o som, não fará música. Num prenúncio de tempestade, se um raio descarregar a sua energia num embondeiro, numa remota região africana, e não havendo pessoa ou animal algum para captar as partículas sonoras provocadas pela queda dos seus ramos, o som do fenómeno não existe. Sabendo que esta teoria não passará de um fait-divers filosófico, não quero deixar de aproveitar o seu balanço para extrapolar a questão para outros assuntos mais rotineiros.

Interrogo-me assim, se por outro lado, alguém que nunca é visto existirá. Precisamos que alguém olhe para nós para existirmos?

Eu julgo que existo quando estou sozinho, mas às vezes, confesso, não tenho a certeza. E é por isso que eu me olho ao espelho com alguma frequência, apenas para confirmar se ainda estou ali, e dar também um pequeno jeito ao cabelo. Não gosto de existir despenteado.

Parece que vivemos numa época em que só existimos se formos vistos por alguém, e o nosso nível de existência mede-se pelo número de olhos que nos dão a sua atenção. Sou visto, logo existo.

Confesso ter uma certa falta de confiança a esse respeito, porque não quero ser uma pessoa com uma existência intervalada, eu quero existir constantemente, como qualquer outra pessoa. É por isso que mesmo na rua não deixo de olhar para o meu reflexo nos vidros dos carros, com medo de desaparecer, fazendo-me assim não depender do olhar de terceiros para que a minha presença neste planeta seja real.

Os auto-retratos são as provas de vida mais comuns nos dias que correm. Os meus favoritos, neste momento, são aqueles que se tiram dentro do carro, antes de arrancar para mais uma viagem. No fundo, essas fotografias são meros testes de existência. Não há nada mais perigoso que uma pessoa que não existe a conduzir um carro. É mais responsável fotografar o rosto e partilhar a imagem para o mundo, do que arriscar uma condução desatenta para ter que desviar o olhar frequentemente na direcção do retrovisor para ver o nosso reflexo.

Já experimentei também tirar auto-retratos, mas desisti passado pouco tempo. O meu telemóvel não tem a função “Rosto Belo”, e o resultado era sempre assustador. E também porque não tenho nenhum gorro nem chapéu para pôr na cabeça de forma a deixar à frente um bocadinho de cabelo à vista, para assim partilhar com o mundo que sou giro, e não tenho frio na testa.

Chego por isso à conclusão que dá muito trabalho existir por estes dias, antigamente era mais fácil. Era possível correr e andar de bicicleta sem uma câmara de vídeo radical amarrada ao corpo, podia-se ir a concertos e estar concentrado no espectáculo, em vez de estar concentrado nas gravações do mesmo, e aquilo que comíamos só a nós nos dizia respeito. Agora, quem quiser existir em condições, terá de encarnar a vida de uma estrela de TV ou cinema, e por isso todas as casas de banho deixarão de ser apenas casas de banho e transformar-se-ão em camarins. O conceito de figura pública vai-se democratizando, não sendo tão exclusivo como era antes.

Cada um existe como quer, e cada um é que sabe como deve celebrar a sua existência todos os dias. Importante, talvez, não esquecer também da existência dos outros.

Na verdade, acho que pensar constantemente em nós, e tentar provar todos os dias que existimos é um grande aborrecimento. Todos os melhores momentos que passei na vida foram aqueles em que me esqueci de mim e que só terminaram quando voltei a estar sozinho e lembrei-me que existo outra vez.

 

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