As religiões, depois a política, o dinheiro, a tecnologia e as plataformas digitais. A humanidade parece não parar de inventar novas formas de restringir a sua liberdade. Durante séculos de evolução, apenas mudaram os nomes das coisas, mas o seu conceito continua a ser o mesmo. O religiosamente correcto imperou durante anos, e ainda é rei numa grossa camada da sociedade moderna, e o politicamente correcto emerge numa espécie de pastiche de alguns dogmas religiosos. A influência das igrejas nas gerações mais novas foi paulatinamente substituída, porque a figura de um Deus omnisciente e omnipresente personificou-se na lente de todas as câmaras digitais que acompanham as pessoas no século XXI. Deus poderá finalmente reformar-se porque agora nos supervisionamos uns aos outros, como Ele nos supervisionou.
Para alimentar os meus desejos mais subversivos, e atenuar a minha fome de liberdade, procuro consumir a arte daqueles que sempre fizeram por mandar às favas a normalidade pré-concebida em que a maioria se deixa a marinar. Charles Bukowski teria nos dias que correm mais dificuldade em ser publicado, Henri de Toulouse-Lautrec seria obrigado a ter parte das suas pinturas arrumadas numa cave, e se na cozinha, o aparecimento de Marco Pierre White não acontecesse há 30 anos e surgisse agora, mais rapidamente o chef britânico seria colocado numa gaveta de maluquinho e muitos teriam medo de ir a um seu restaurante. Se Hank Moody existisse na vida real, seria obrigado a trabalhar num buraco qualquer pelo salário mínimo, não teria um Porsche com um farol partido, mas no máximo um Fiat Uno vermelho com a cor já esbatida pelo sol.

Ser subversivo ou mesmo inspirador, não é algo que acontece da noite para o dia. É preciso um contexto, é preciso acumular várias camadas de experiências, que depois fazem nascer finalmente um verdadeiro artista capaz de fazer o mundo pelo menos repensar naquilo em que acredita.
Não é só um penteado avant-garde, a roupa trendy, ou a banana que se come em directo na primeira vez que se aparece em televisão, que fazem do artista uma alternativa. Antes disso tudo, é preciso ter qualidade no seu trabalho, ter verdadeiramente um conteúdo genuíno para mostrar, ter quilómetros nas pernas. É isso que conta no final. O que precisamos são de artistas que mandem cá para fora aquilo que têm dentro de si, e não um produto que parece ter saído de um laboratório da especialidade com o desígnio de dar às massas aquilo que supostamente elas querem.
Admito que talvez fosse mais fácil ser subversivo e navegar contra a maré há uns anos atrás, quando não existiam múltiplos canais de informação, sedentos de cliques e comentários, onde qualquer um parece estar habilitado a ter uma opinião crítica sobre qualquer coisa. Onde uma interpretação errada por um terceiro cria uma avalanche de opiniões negativas pouco fundamentadas que podem colocar o visado em posições pouco confortáveis. Malefícios da liberdade de expressão, que é necessário aprender a viver com eles.
Acredito que a actual brigada do politicamente correcto consiga inibir muitos de se lançarem às feras, mas se isso acontece, é porque não estamos a falar de verdadeiros subversivos. E pensando bem, ainda bem que não há assim tantos, pois dessa forma deixava de ser especial.

Nas minhas habituais divagações nocturnas encontro-me muitas vezes numa roulote de cachorros perto da minha casa com o Bukowski, o Lautrec, o Marco e o Hank. Às vezes aparece lá o António Variações. Falamos de trabalho, do Benfica, e procuramos um sentido para a vida. Pedimos quase todos cachorros com os três molhos, porque somos boémios. O Hank prefere cebola frita e não quer batata palha. O Marco Pierre White é sempre o mesmo esquisito, e só come sandes de panado. Meia dúzia de horas depois acordamos sempre mal dispostos, e prometemos mudar de vida. Mas no fim de semana seguinte, voltamos a fazer tudo outra vez.