um sítio para fugir

A Fábula do Deus Patrão

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Imagino um pedido de ajuda a Deus como um e-mail que se envia com uma requisição de assistência a uma empresa qualquer. Milhões e milhões de reclamações a acumular-se numa divina caixa de correio.

Deus já não quer saber, sei de fonte segura. Só pensa no carro novo que vai comprar, no restaurante onde vai comer, nos sapatos caros com que vai impressionar e claro, no penteado em degradê que insiste em fazer.

São os anjos e os arcanjos que sentados na frente de um computador, que a troco apenas da bondade do Criador, executam a hercúlea tarefa de responder a todas as solicitações. Mas eles, coitados, também já não sabem o que fazer.

Cansados, desmotivados, lamentando a rotina dos dias e a falta de sensibilidade do seu Superior em reconhecer a dificuldade daquela tarefa.

Deus já não se lembra do tempo que era trabalhador. Sozinho, criou o mundo sem tempo nem espaço para pensar em mais nada, descurando sem qualquer pudor a sua vida pessoal naquela época.

Apenas descansar ao Domingo não chega, e por isso na altura o jovem Todo Poderoso deixou cair inúmeras relações por causa do trabalho, e inconscientemente, talvez, essas mágoas do passado sejam, milhares e milhares de anos depois, a razão para este comportamento lamentável do Divino. Mas isso sou eu a especular.

Ainda hoje recordo o dia em que os anjos e os arcanjos fizeram um pré-aviso de greve a que Deus respondeu: “Façam o que quiserem. Não quero saber.”

Cabisbaixos e apenas impelidos pelo seu brio, os seus colaboradores abandonaram a ideia e continuaram o trabalho.

De reclamação em reclamação, de oração em oração, de pedido em pedido, lá vão, ainda hoje, ininterruptamente respondendo a cada solicitação feita ao Altíssimo.

Às vezes as respostas tardam. Dez, vinte, cinquenta anos até. Na maioria das vezes chegam quando já é tarde demais. A qualidade do serviço religioso caiu a pique nestas últimas décadas.

Daí ter decidido desde muito cedo rescindir o contrato que os meus pais me obrigaram a assinar com Deus, num banho com uma água sagrada qualquer na cabeça.

A nível religioso sou por isso um trabalhador independente, um renegado, um vagabundo por amor, um cordeiro que põe o pecado no mundo.

Nunca perdi tempo a mandar esses e-mails, porque nesta luta contra o resto do mundo sem ajudas divinas, todo o tempo é precioso para chegar onde queremos ir.

Quando lá chegar, se chegar, levo o meu telemóvel, e peço para me ensinarem a fazer um Story no Instagram. Filmo qualquer coisa à sorte e escrevo obrigado. Deus que vive enfiado nas redes sociais irá sorrir naquele momento, tenho a certeza. Mas segundos depois, o meu Story esfumar-se-á, e será instantaneamente esquecido, ficando Deus estarrecido no resto daquele início de noite com as mais recentes novidades dos seus anjos predilectos…

os da Victoria’s Secret.

Bom Natal.

E até para o ano, se Deus quiser.

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