Sou a pessoa menos viajada que conheço, efeito claro, de conhecer pouca gente, e de efectivamente ter viajado muito pouco.
Falamos claro de viagens, digamos, físicas, daquelas em que o meu corpo é transportado para outras geografias, onde as pessoas falam outras línguas, ou até mesmo falando português, falam de forma diferente.
Se falarmos de viagens mentais, o meu passaporte tem carimbos de todo o lado. Já ultrapassei os limites do planeta, e em viagens no tempo sou já um veterano.
Por isso considero-me um viajante profissional em ondas cerebrais, obviamente uma tarefa em regime pro bono, porque ainda não encontrei quem me quisesse patrocinar na arte de divagar.
A vida não está fácil para os divagadores da actualidade. O mundo nunca esteve com tanta rotação, e a divagação requer um certo grau de abstracção e quietude. Seres abstractos e quietos são olhados com desconfiança.
Um divagador amador minimamente talentoso precisará sempre de uma boa dose de sorte para ser um profissional, e com isso obter reconhecimento pela sua arte. Artistas ou não andamos todos à procura disso mesmo. Reconhecimento. Dos nossos pares, da família, dos amigos, inimigos, das pessoas da nossa rua, da cidade, país, do mundo. Queremos ser valorizados pelo trabalho que nos propomos fazer. Sem paciência, muitos não sabem esperar, e diariamente se auto-glorificam a cada tempo de antena. Outros (menos) continuam paciente ou impacientemente à espera que a sua maré decida finalmente virar.
Julian Shnabel é um pintor e realizador norte-americano, que neste último ano desafiou o actor Willem Dafoe a encarnar a persona do icónico pintor holandês Vincent van Gogh. “At Eternity’s Gate” é a interpretação do actor e do realizador daquilo que terão sido os últimos anos da vida do artista, na sua incessante busca da sua voz interior, na sua solitária caminhada pelo sul francês, para longe do bulício da capital parisiense, ouvir-se a si próprio mais do que os outros, conectar-se com a natureza, esperando, mais impaciente do que pacientemente, pelo reconhecimento, que hoje, sabemos todos, ele mais que merecia. Mas antes de julgar aqueles que desmereciam os méritos do pintor holandês na época, pergunto-me como é que eu próprio receberia as criações do autor sendo eu um vulgar habitante de finais do século XIX. Gostamos todos de nos pensar como as mais desenvolvidas inteligências, com a mente mais vanguardista e com o mais superior sentido de bom gosto. Por isso mesmo, e por saber que sou precisamente tudo isso, acredito piamente que na época seria capaz de bendizer os méritos do pintor.

Agora a sério. Tenho-me habituado ao longo do tempo para avaliar o trabalho dos outros pela minha própria cabeça, sem esperar pelo suposto carimbo de qualidade que a crítica generalizada e os meios de comunicação social amplificam. Os carimbos não têm mal nenhum, mas são limitativos. Perdemos muita coisa enquanto esperamos que os outros digam o que é bom. Gosto de perder tempo com aquilo que a sociedade considera que “ainda não é bom”. Gosto de ver concertos em salas pequenas, de ver quadros em salas quase vazias, de ver filmes aborrecidos que ninguém quer ver, de comer em lugares com qualidade ainda longe de estarem na moda. Quando mais calmo o ambiente à minha volta para apreciar a obra ou o prato, melhor, quanto menos atropelamentos para gravar vídeos e tirar auto-retratos, melhor ainda.
Mais sobre o filme. O sentindo estético de Shnabel personificou-se na elegância extrema com que a sua câmara se movimentou ao longo do filme para captar com planos apertados as feições dos personagens, de pequenos pormenores que complementavam a linguagem corporal dos actores, da câmara sempre irrequieta que deslumbra o espectador com o eterno jogo de luz e sombra da natureza, e do som do piano que vai pautando o ritmo e a intensidade de cada cena. Do elenco pontifica obviamente Willem Dafoe, já vencedor de prémios pelo seu trabalho, mas é redutor falar apenas dele. Rupert Friend, Oscar Isaac, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner, todos com participações mais pequenas, mas todos eles competentes na sua função de nos fazer acreditar nos personagens que representavam, servindo ora de inspiração aquele Van Gogh, de companhia, assumindo-se como contrapeso da balança para o pintor que tendia a resvalar com frequência para o lado da insanidade. E para todos aqueles que questionam a utilidade da arte e as motivações de quem a produz, talvez este filme consiga fazer acender algumas luzes em certas consciências.
“I can make people feel what it’s like to be alive”
Assumindo talvez já a sua derrota pelo reconhecimento em vida, esta versão de Van Gogh começara a preocupar-se com a sua relação com a eternidade, não tanto sobre a forma como seria lembrado, mas mais com o legado e a inspiração que deixaria nesse futuro. Daí o título “Às Portas da Eternidade”. Van Gogh é só mais um exemplo de artista que terá perdido em vida e vencido em morte. Quanto mais horizontes alargarmos, quanto mais abertos a experiências fora daquilo que seja considerado mainstream, mais ricos nos tornaremos, e menos injustiças destas acontecerão.
“Maybe God made me a painter for people who aren’t born yet. It is said, Life is for sowing. The harvest is not here.”
Mais do que os óscares, globos de ouro, palmas de ouro, ursos de ouro e baftas, o que os cineastas de todo mundo querem saber é qual foi o meu filme favorito de cada ano cinematográfico que passa. Tal como os restantes prémios menores que atrás enumerei, existem também nomeados, favoritos, red carpet e muita emoção neste galardão que atribuo todos os anos.
“At Eternity’s Gate” terá este ano de contentar-se mesmo assim com a minha medalha de prata. A minha estatueta dourada dos filmes que vi no último ano vai para Cold War, de Pawel Pawlikowsky. Apetece-me escrever sobre ele desde que o vi, mas para já continuo a deixar a amadurecer as reflexões cá dentro, nos fugazes quinze minutos de liberdade que me sobram da hora de almoço e naquela última hora diária de energia que me resta todos os dias antes de adormecer.