Amanhece. A persiana da janela milimetricamente aberta vai deixando entrar os primeiros pedaços de claridade, que intuitivamente libertam-me das várias amarras da sonolência que teimam a prender-me à cama.
Segundos depois ainda não sei bem quem sou, ou o que sou, mas em pouco tempo o meu cérebro começa a ligar vários pontos da minha cognição, desconectando-me da aparente leveza das horas em modo suspenso, para definitivamente activar em mim o modo “realidade”.
Ainda de olhos fechados questiono-me que mundo estará lá fora.
Mais à frente, já fardado com o equipamento da pessoa que para já decidi ser, sentado com um caneca de café vejo a luz crescer de intensidade nas duas janelas viradas a nascente da mansão onde eu moro.
Das duas janelas vejo todos os dias o sol nascer de forma diferente. Pergunto-me: Porque haverei eu de ser todos os dias igual?
Viro as costas à luz e olho para a altura da montanha do meu dia. Atiro uma corda, prendo o arnês, e começo a escalar, muitas vezes pouco confiante dado ao tamanho da empreitada. Às vezes caio, mas as cordas que me amarram à parede mantêm-me em jogo. Combalido, recupero energia regressando insistentemente à minha rota ascendente.
Subo montanhas todos os dias, mas ainda não consegui chegar ao topo de nenhuma. Talvez sejam as cordas que me protegem, que me impeçam de chegar mais alto. Talvez sejam as cordas que não me façam ser o mais rigoroso que possa ser. Talvez, não sei, devesse arriscar uma subida num estilo diferente.

Longe de mim comparar-me com Alex Honnold. Aquilo que ele faz vai para lá de extraordinário, porque não há assim tantas coisas que eu assista no mundo que me façam inconscientemente ficar com a respiração em suspenso.
Ao contrário da maioria das pessoas que se limita a sobreviver, obviamente da melhor forma possível, Alex mostra-nos que a vida em alguns casos pode ser muito mais que uma questão de sobrevivência e descendência. Coragem, beleza, obsessão e triunfo sobre o perigo. Não acredito que exista alguém no mundo que fique indiferente a esta última proeza de Alex, ao escalar os 975 metros da parede granítica do El Capitán no Parque Natural de Yosemite, na Califórnia. É óbvio que as motivações de Alex Honnold não passam por fazer o que faz para nos ensinar o que quer que seja. Ele faz o que faz para responder a uma necessidade natural, fá-lo por prazer, pelo prazer de alcançar um objectivo que implica ser rigorosamente perfeito naquilo que se faz. É possível superar outros desafios sem ser perfeito, para subir El Capitán em free solo, não. E nem quero imaginar o que ele vai querer fazer a seguir.
Subir a mesma montanha com cordas, não deixa de ser um feito extraordinário, mas só desta forma é que era possível provar o quão perfeita é a sua técnica. Para quem advoga que nada no mundo é perfeito, talvez o trabalho de Alex faça algumas cabeças repensar o paradigma.
“Free Solo” ganhou o Óscar de melhor documentário não propriamente pela qualidade artística da execução do filme, apesar dos inegáveis planos de cortar a respiração proporcionados pelos autores da obra, mas principalmente pela arte e a destreza física do feito de Alex, e também pela demonstração rara de uma completa subvalorização da morte, tanto do próprio, bem como de outros colegas de profissão.
Com o exemplo de Alex passei a olhar para as minhas montanhas com outros olhos. Continuam gigantes, para a escala da minha vida, mas não tão assustadoras. Se treinar obstinadamente, se for rigoroso, talvez nem precise de apelar à aleatoriedade da sorte para chegar lá cima. Tirarei prazer pelo caminho, e se falhar, paciência. É a vida. Se conseguir, aproveitarei a efemeridade da vitória, e lá em cima tiro alguns segundos para apreciar a paisagem.
De regresso a casa sei que vou adormecer satisfeito. Quando a luz voltar de manhã, e descobrir novamente quem eu sou, inventarei inevitavelmente uma montanha nova para subir.
Com cordas ou sem cordas, sem pressas, começarei tudo outra vez.