Caminho lentamente ao longo de uma extensa e inóspita seara de trigo, de braço suspenso, com a palma da mão aberta, sentindo delicadamente cada espiga ao longo da minha passagem.
O sol descia no horizonte fazendo a sombra de alguns sobreiros crescerem na minha direcção.
No braço esquerdo e de telemóvel em punho, deslizava com o polegar no ecrã com a mesma delicadeza que tocava no trigo.
Carreguei sem querer num Story… interrompi a marcha… e esqueci-me de mim por largos segundos. Imagens, sons, frases e parágrafos inteiros multiplicavam-se naquele pequeno ecrã a um ritmo alucinante. A estranheza invadiu o meu espírito. Estoicamente aguentei até ao fim aquela sequência de histórias. Parte do meu cérebro revivia o meu passado adolescente enquanto via os Malucos do Riso sempre à espera que pelo menos uma vez eles tivessem piada.
Inclinei a cabeça para recuperar um pôr do sol que praticamente já não existia.
Resignado, virei as costas ao horizonte, troquei o telemóvel de mão, abri a aplicação novamente para começar a ver tudo outra vez.
A noite avançava, e o frio e o vento cortante que se levantou gelava-me os ossos, mas, resiliente, como um espantalho nocturno, mantive-me na mesma posição focado na minha missão de descobrir o interesse e a utilidade de um Story.
O tempo passava, sozinho, esfomeado, via no ecrã o primeiro alerta da falta de bateria do meu telemóvel. Corri…
Mais rápido que o vento, mais rápido que um Miguel Oliveira a encostar o joelho nas curvas, mais rápido que um 1º Ministro a culpar o governo anterior, mais rápido e mais intenso que um automobilista a não querer dar prioridade a um outro que já circulava numa rotunda.
Já em casa o nervosismo impedia-me de encaixar correctamente o carregador na tomada. Respirei fundo, e sustendo a respiração como se tivesse a cortar o fio vermelho de uma bomba relógio, encaixei o carregador na perfeição e fez-se luz.
Uma vasta panóplia de novos Stories revelavam-se. Recostei-me no sofá, e apesar de continuar a não perceber o que ali se passava, começava a sentir-me confortável e entretido com aquilo que via. Adormeci, com o telemóvel no colo e sorriso nos lábios.
Acordei duas ou três horas depois com os primeiros raios de luz da manhã. Levantei-me sem a preguiça habitual, para ver crescer o sol nascente na janela do quarto. Levantei o telemóvel para o nível dos olhos e filmei 10 segundos daquela manhã. “Priceless” escrevi, e partilhei. Voltei para a cama satisfeito já a pensar no que iria filmar a seguir. Talvez filmasse a caneca de café e a torrada habitual do meu pequeno almoço, quem sabe. A vida dava-me mais um motivo para existir. Partilhar fragmentos de nada num story. Talvez aplique nesses fragmentos o efeito boomerang para espevitar a coisa. Talvez acrescente uma música, eu sei lá. Cada vez sinto-me mais agradecido por viver neste tempo moderno.
“No princípio era o Story, e o Story estava com Deus, e o Story era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Tudo foi feito por ele, e nada do que tem sido feito, foi feito sem ele.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens…”
Palavra da salvação.